COMUNICAÇÃO ARCAICA





Oi, meu nome é Bryan. Tenho 16 anos, estudo em tempo integral, curso eletrônica. Vivo nos anos 80, mais precisamente em 1982, nos EUA. Tenho um computador portátil, escuto minhas músicas no meu walkman e adoro ficção científica, especialmente "Jornada nas Estrelas". Gosto de escrever histórias. Ah! Essas histórias são adaptações dos sonhos do meu amigo Dylan. Eu não acredito em nada místico, mas respeito o que ele crê e uso suas imaginações para compor minhas histórias.

Meus pais vão à igreja todo domingo, mas eu já não os acompanho. Nunca acreditei em nada que não fosse comprovado pela ciência. Mas tenho um amigo que sempre diz que consegue ter sonhos lúcidos (controlar os sonhos) e que a vida é mais do que tudo isso que a gente vê. Ele também gosta de meditação, cristais e jura que já falou com Deus. Ele é meio maluco, mas é um cara legal.

Estou conhecendo uma garota da escola. Nos beijamos algumas vezes, mas nada se compara às sensações que já senti por uma outra garota chamada Mary. Quando eu ia obrigado à igreja, minha única distração era ela. Cabelos cacheados cor de chocolate e um olhar tão marcante que até quem tinha astigmatismo conseguiria notar. Ela conquistou meu coração. Aliás, ele acelerava toda vez que eu via Mary. Eu sabia muito pouco sobre ela, mas desde pequenos andávamos de mãos dadas na saída da igreja. Lembro-me de um dia em que ela me perguntou:

— Bryan! Você me defenderá como os heróis da TV? 

— Eu não tenho superpoderes, mas até lá posso criar uma máquina que faça isso por voc..." — sua mãe sempre a chamava com um tom de voz grave.

Mary me olhava com toda a atenção do mundo.

— Mary! Vamos para casa! — disse sua mãe, uma mulher alta e rancorosa. Ela me odiava, mas fingia respeito quando tinha alguém por perto.


  Alguns anos depois, Mary frequentava cada vez menos a igreja. Ela dizia que seu pai não tinha tanta fé e sua mãe também não. Na mesma semana que eu vi Mary pela última vez ela estava sozinha e sendo amparada pelo pessoal da igreja. Cheguei próximo e uma senhora me aconselhou levar Mary para o jardim da igreja.

— O que aconteceu? — Meus pais morreram em um acidente de carro. 

Dei um leve suspiro, pois não aguentava mais frequentar o mercado da família dela, onde sua mãe sempre me humilhava, dizendo que eu não seria nada e que sua filha nunca ficaria comigo.

Eu não tinha palavras para ajudá-la. Na minha família nunca alguém tão próximo tinha morrido, então apenas abracei.

— Preciso morar com minha avó na Califórnia. Aqui está meu telefone. Pode me ligar quando quiser.

Ela saiu e uns dias depois liguei para esse número, mas sempre a avó dela dizia que ela estava ocupada ou tinha saído com o tio. Um tempo depois, aquele número ninguém atendia e tive que esquecer Mary de qualquer jeito.

Anos depois, meu amigo ia visitar sua tia avó na Califórnia e ele me chamou para irmos juntos. Eu aceitei porque era o mesmo lugar que Mary estava vivendo, sei que é um lugar muito habitado, mas iria descobrir sua locação de alguma forma.

Eu e o Dylan pegamos o carro do pai dele e fomos em uma lanchonete, pedimos um lanche e uma Pepsi.

— Morro de saudades da Britney. 

— Não faz 24 horas que vocês estavam juntos. E era tanto amor que eu vi de longe e pensei que vocês eram um só. Ou ela tinha engolido você. — Rimos. 

— Você bem que poderia pedir aquela menina do seu curso em namoro. 

— Minha mãe iria amar isso, já eu não sinto nada por ela. 

— Ela tá bem iludida. Conversa com ela quando voltarmos, não deixe uma garota com ilusão, você nem imagina o que uma garota pode fazer com você. 

— Espero que ela não me engula. Essa função é da Britney para com você!

Dylan ficou pensativo.

— Você sabe pelo menos o sobrenome da Mary? 

— Sei. Golden. 

— Aquele telefone será que ainda existe? 

— Eu tentei e estava fora de área.

— Sua mãe não falava com a mãe dela. De repente ela pode dar alguma dica.

 — A mãe dela só falava oi e tchau. 

— Tente, ligue para sua mãe.

Eu fui em uma cabine telefônica e minha mãe atendeu.

— Mãe! 

— Filho, aconteceu alguma coisa?

 — Você sabe alguma informação da mãe daquela menina que eu andava de mãos dadas na igreja?

 — Sim, os pais dela morreram em um acidente. A senhora Goodman falou que ela foi para longe, mas que depois de um tempo a avó dela faleceu e a menina ficou na casa do tio. Provavelmente em Glendale. — Sim, passei por perto. Obrigado! 

— Caso a veja, mande lembranças!

Desliguei a ligação e pedi para o Dylan voltar nesse lugar.

— Sim, vou ligar para minha velha dizer que chegaremos tarde.

No caminho paramos para ver o pôr do Sol. Escutei um choro ao fundo e o Dylan brincou comigo.

— O senhor "Coração de gelo" agora chora com a despedida do Sol? 

— O Sol nunca vai embora, só se oculta no horizonte. 

Eu disse super bravo. Olhamos para trás e na guia estava uma moça de cabelos loiros descoloridos chorando desesperadamente. Saí en Toquei em seu ombro, eu reconheci o olhar mais marcante que já tinha visto.

— Mary? — Eu a reconheceria em qualquer fase de sua vida, mas aquele olhar estava ferido e roxo. — O que houve?

Ela mudou o tom de sua voz e colocou rapidamente seus óculos escuros.

— Bryan, quanto tempo. Como você está bonito! — secou o rosto imediatamente.

Dylan veio rapidamente ao nosso encontro.

— Mary, sou o Dylan, amigo desse bonitão. Lembra de mim? Eu era gordinho. Agora estou grande e...

— Careca! — Mandei essa para descontrair. — A gente está indo pra Los Angeles.

Eu fiquei preocupado e só queria saber o motivo de Mary estar assim. A mochila que ela carregava parecia tão pesada...

 —  Acabei de perder meu emprego. Sofri um pequeno acidente. Uma lata de atum caiu no meu rosto e o dono disse que eu fiz isso de propósito para me ausentar.

— Você quer que a gente te leve para casa?

— A última coisa que quero é voltar para lá. Uma amiga está em casa e hoje ela resolveu dar uma festa para comemorar sua maioridade. Querem ir?

Eu achei estranho, mas eu precisava saber mais sobre ela.
Chegamos em um casarão, som alto e várias pessoas. Mary falava com todos e todos a recebiam bem. Ela parecia popular.

— Meninos! — Ela acenou de outro cômodo. Fiquem à vontade. Vou falar com a minha amiga e já volto.

Pegamos algumas bebidas e conversamos com algumas pessoas que elogiavam bastante a Mary. "Ela é tão trabalhadora", "Ela me ajuda com trabalhos da escola", "Ela merece namorar alguém bacana". Fiquei feliz ao ver aquela menina tímida se tornar uma pessoa tão querida.

Um tempo depois, Mary desceu as escadas bem maquiada. O roxo dos olhos era imperceptível, mas ela resolveu colocar os óculos mesmo assim. O vestido azul a deixou tão bonita que nem parecia a menina que vi chorando há algumas horas atrás.

— Oi, Bryan! Gostando da festa? Eu não estaria aqui se não fosse você. — Ela me abraçou.

— Lembra que eu iria te salvar algum dia?  Acho que esse dia chegou.

Ela abriu um sorriso tão genuíno que parecia que eu voltei alguns anos atrás.

—  A piscina está vazia. Vamos lá! — Ela segurou minha mão. A mão dela era macia.

Com os pés na água, olhei para Mary. E disse:

— Por que você não me procurou? Você tinha meu número eu viria até você até de bicicleta.

Ela tirou as mãos de mim rapidamente. 

— Eu fiquei muito triste com a morte dos meus pais. Minha avó faleceu no mesmo mês e tive que ir morar com meu tio e o marido secreto dele. Meu tio trabalha muito, por isso que eu também prefiro trabalhar muito do que ficar em casa. Minha família agora são essas pessoas. Não te procurei por não saber mais o que fazer, não teria assunto e... Não sou mais aquela menina... 

— Você sempre será, para mim, aquela minha amiga.

—Mary! - Falou sua amiga. - Você pode me ajudar na cozinha?

— Sim! Já volto, Bryan.

Voltei para a sala e vi que já era tarde.

— Bryan, vamos! Seus pais já devem ter ligado pra minha tia.

Dissemos adeus para as pessoas e, quando eu ia me despedir de Mary, sua amiga disse que ela já tinha ido.

— Ela acabou de sair. Deixou um bilhete para você.

— Como assim? A gente ia dar carona pra ela. — eu fiquei sem entender.

"Meu telefone e meu endereço"
Att, Mary

Fomos embora e, no caminho, Dylan ligou seu toca música e no último volume tocou a música do Billy Idol - Dancing with Myself, Dylan estava tão feliz por mim que disse:

— Se esta noite eu não sonhar com minha Britney, vou desejar que eu encontre você e a Mary dançando em uma danceteria.

— Que original! Nem sei se estou tão apaixonado assim. Foi uma surpresa e meu coração acelerou ao olhar pra ela.

— O Senhor coração de gelo está derretendo! — Dylan me deu um soco no coração.

Ao olhar pela janela, vi um carro parar ao nosso lado.

— Pare! — falei baixinho.

Um homem com uma jaqueta preta, cabelo grisalho, saiu desesperadamente do carro, pegou o braço de uma moça com tanta força que ela caiu, fechou a boca dela com fita e olhou para minha janela. Percebi que conhecia aquela moça. Era a Mary. Ele pegou uma arma e atirou na direção dela. Vi a cena e Dylan ficou muito assustado.

O homem saiu correndo e eu fui na direção do corpo de Mary.

— Você é louco! O cara pode voltar. — disse Dylan assustado.

Eu nem pensei e fui até ela. 

Dylan foi pedir ajuda em alguma casa próxima. Para poder ligar pra polícia e pedir ajuda. 

Peguei ela nos braços e ela não respirava mais. Aquela foi a última vez que estaria tão próximo dela.

Chegaram policiais e ambulância, e eu só queria dizer quem foi. Reconheceria aquele homem até mascarado.

Fomos até a casa da amiga de Mary para dizer que foi lá a última vez que a vimos.

O tio de Mary foi para o hospital e nós estávamos na delegacia junto com sua amiga.

— Vocês dois viram quem foi? — disse a amiga dela, balançando as pernas desesperadamente na cadeira.

— Foi um homem de cabelo grisalho, alto e bem magro. Sei todos os traços do rosto daquele cidadão.

— Sei quem é! — Ela falou tão baixo que precisei me aproximar dela. — E mesmo que você não descrevesse, ele é o único que faria isso.

 — Foi "marido" do tio dela. Esse cara é o subprefeito da cidade, pouca gente sabe que eles são um casal, fingem ser amigos morando juntos, mas o tio dela sempre fala que é um homem gay comprometido. O tio dela trabalha o dia inteiro, chega tarde em casa e esse cara nem parece que tem emprego. Vive redondezas comendo de graça, conquistando tudo e todos. A cidade ama esse cara, mas eu e meus amigos não. A gente percebia sempre as agressões que a Mary sofria, mas nas únicas vezes que ela o denunciou, o delegado era melhor amigo dele e o dispensou. Falamos com alguns pais, mas ninguém acreditou porque a Mary era nova na cidade e ele sempre foi o homem que dava o exemplo. 

O delegado chegou com o subprefeito, ambos rindo e ele fingia secar suas lágrimas.

— Foi você, seu idiota! Eu vi.


Dei um soco na cara dele.


— Menino, eu sou o tio dela. Eu nunca faria isso com a minha menina. Você deve estar atordoado.

Me abraçou e falou no meu ouvido:

— Ou você fica quieto ou vou fazer o mesmo com você!

Sentou ao meu lado, segurando minha mão e dizendo que ver alguém sendo assassinado era traumatizante.

Eu estava com muito ódio, mas não pude fazer nada. Ele tinha o dom da comunicação.

 Algum tempo depois, o tio de Mary chegou. Ele está abalado, era um homem bem magro de cabelo escuro e olhos azuis.

O idiota chorava junto com o tio de Mary.


— A gente vai descobrir quem foi. — disse o subprefeito que era tão rechonchudo que mal cabia no terno.

— Eu me culpo por trabalhar tanto e não saber onde ela ia o dia inteiro. - Gritou o tio.

— Eu sempre pedi para ela me ajudar no gabinete, mas ela dizia que queria ir para festas — ele falou, tirando uma foto da carteira e mostrando os três juntos no dia de Ação de Graças. — Ela mentia muito, fugia e evitava conversar comigo, mas eu sentia muito amor por ela.

Os pais do Dylan chegaram. Pegaram o primeiro avião quando descobriram o que tinha acontecido. Minha mãe quis vir, mas pedi que não. Eu voltaria depois do enterro.

— Posso falar com vocês? — disse o pai de Dylan para nós, tirando a gente daquele teatro do subprefeito.

— Vocês são suspeitos. Tem um vídeo passando nos jornais que mostra o porta-malas do carro do meu filho. E a arma está lá.


— Como assim? — disse Dylan, assustado.


— A gente saiu do carro desesperadamente. Provavelmente, alguém implantou isso lá.


— Bryan Olsen e Dylan Williams, vocês ser presos.


A mãe de Dylan chorou e nos abraçou.


— Acredito em vocês. Vamos resolver isso. Bryan, seus pais estarão aqui pela manhã. Farei de tudo.

Fomos para uma a cela. Ainda bem que eu tinha a companhia do meu amigo.

—  O que esse cara está fazendo? Ele é um mentiroso abominável!

— O poder acaba com a vida das pessoas. Você viu que ele chorava como se tivesse algum amor pela Mary. O tio dela tem que saber de tudo!

Na madrugada, eu não conseguia fechar meus olhos. Ao tentar, só lembrava de Mary sendo assassinada. Eu nunca fiquei com tanta raiva em minha vida.

Ao amanhecer, minha mãe, aos prantos, foi falar comigo.

— Filho! Eu sei que não foi você! Pedi pro pastor orar por você.

— Pra quê, mãe! Nem acredito nisso! Só você ainda tem resquício de fé.

— Não fale assim com sua mãe. Se você não tem fé... E pelo jeito não tem caráter e quis fazer isso com a menina que nunca quis você!

Meu pai não me olhava e estava muito bravo. Nunca o vi daquele jeito.

— O que vocês fizeram foi horrível. Vocês foram criados com muito amor. Eu confiava em vocês. Como puderam?

— Pai! Acredita em mim! — Eu não conseguia falar de tanto chorar. — Você sabe que eu nunca faria isso!

— Eu não deveria ter aceitado seu desprezo pela nossa igreja. Você sempre colocou na nossa cabeça que lá ninguém prestava, que só tinha fofoqueiros. Você odiava a mãe da Mary. Agora tudo se encaixa. Sua vinda pra cá... você é obcecado por ela. Olha o que você fez. Destruiu o seu futuro.

Eu sentei no chão e não conseguia nem falar. Meu pai foi embora e nem deixou minha mãe se despedir.

— Seu advogado estará aqui à tarde. Fale a verdade, porque provas contra você já temos. — disse um policial rindo da nossa cara.

— Não sei o que faço!

— Nunca o vi seu pai assim. Estão nos acusando de algo que a gente não fez. Sei que você não gosta de espiritualidade e nem de assuntos místicos, mas pelo menos fale comigo esse mantra para acalmar nossa mente..

"Om Tryambakam Yajamahe Sugandhim Pushtivardhanam

Urvarukamiva Bandhanan Mrityor Mukshiya Maamritat"

Nós cantamos para o Triúno Deus, o fragrante, o que nutre o mundo. Que nos liberte das amarras da morte, nos conduzindo à imortalidade

Eu não sabia o significado, mas somente repetia.

Minutos depois, em um sono profundo eu senti Mary ao meu lado, pedindo ajuda.

— Meu herói, me ajude! 

Fiquei assustado e acordei.

— Que foi? 

— Sonhei com a Mary pedindo ajuda.

— Ela deve estar desesperada?

— Como assim?

— Senhores Olsen e Williams, seu advogado quer falar com vocês.

Um homem com terno marrom, com pouco cabelo, veio falar com a gente.

Boa tarde, meu nome é Christopher Helton. Sou advogado e quero ajudar vocês. Principalmente você, Bryan, que é réu. A vítima, Mariah, foi assassinada dia 15 de novembro de 1982, às 18h. A arma foi encontrada às 20h no carro de placa TNJ 679. No carro, havia um par de luvas e sangue da vítima. No corpo de delito, foram encontradas marcas de agressão. Na jaqueta do senhor Bryan, foi encontrado um bilhete. Escrito:

"Preciso de sua ajuda, Bryan. Você precisa eliminar minha dor. Eu tenho uma arma e preciso que você me ajude a acabar com a minha vida. Sei que você não quer acabar assim, mas preciso que me mate. Não posso fazer isso, porque não tenho coragem de cometer suicido. Você será culpado, mas mostre esse bilhete para o seu advogado que você não será culpado. Me desculpe."

—  Oque é isso? Nunca recebi esse bilhete. E eu nunca faria isso. Eu não teria esse coragem.

O advogado ligou a TV e mostrou um vídeo para a gente. Era eu e Dylan. Eu brigava com Mary no meio da rua e ela me mostrava o bilhete. A imagem do vídeo não era nítida, mas aquela jaqueta era minha, mas eu sabia dizer se era eu. Pois todos estavam de costas.

Dylan ficou mais apavorado. Sua fé estava ficando estremecida.

— Isso nunca aconteceu!

— Isso é mentira! Isso nunca aconteceu. Que imagens são essas? Não somos nós! — Eu não tinha mais energia pra falar.

O advogado pegou a jaqueta e mostrou o horário no vídeo. Gravado na tela. Era o mesmo horário do momento em que Mary foi assassinada.

 Eu e Dylan não sabíamos o que estava acontecendo, mas tínhamos certeza de que não éramos nós.

— Nós não vamos ficar presos!

— Vocês não precisam mentir. Eu vou ajudar vocês. Ela que quis isso, vocês apenas executaram o que ela pediu.

— Realmente ela me enviou um bilhete, mas não era esse. Só tinha o telefone e o endereço dela. — Tentei achar o bilhete, mas lembrei que deixei no carro.

 — Bryan, esquece. Vamos resolver isso.

Fomos transferidos para outras velas.

Dias depois, no dia da audiência, só meu pai compareceu. Minha mãe passou mal.

— O senhor Bryan não será acusado. Finalizamos esse caso.

— Disse o Juiz. 

Eu não precisei falar nada.

Foi um alívio, mas minha vida nunca seria a mesma.

Dylan também foi, mas não falamos um com outro.

Voltei para nossa cidade sem entender nada. 

O subprefeito xingava a gente na audiência dizendo que ia reabrir o caso para defender sua sobrinha.

Essa cena não saía da minha cabeça. Nada aconteceu como parecia, a carta nos ajudou, mas nada daquilo era real. Nós só ajudamos a chamar ajuda no dia do assassinato.

Tive que terminar meu curso de eletrônica em casa, porque o país inteiro soube que fui preso, e sempre havia alguém na rua me chamando de assassino. Fui trabalhar em uma oficina mecânica e ficava escondido, consertando os carros. Dylan foi proibido de falar comigo, e tudo o que eu fazia era julgado como algo ruim. Todos se afastavam de mim, exceto meu chefe, que ainda acreditava em mim. A única distração que eu tinha era escrever minhas histórias em cadernos, já que não podia usar um computador. Meu pai queimou meu computador e, como ainda morava com ele, mesmo sendo maior de idade, o dinheiro que eu ganhava na oficina só cobria o básico. Nem comida eu podia comer da minha casa, só se fosse do meu dinheiro. Não tinha motivação alguma. Trabalhar na oficina me deixava cansado. Eu só queria voltar à minha vida.

Fui buscar sua mãe no psiquiatra. Trabalharei 3 dias seguidos e preciso que você leve sua mãe esses dias para as sessões com a psicóloga e para fazer exames." Dizia o bilhete na geladeira. 


Era a primeira vez depois de tudo isso que ele pediu algo pra mim. Depois desses três meses.


Meu pai não falava mais comigo.  Minha mãe não conseguia falar comigo. Chorava o tempo todo e me evitava sempre.
No dia seguinte, fui com ela até uma clínica. Resolvi levar uma caneta e um caderno. Precisava me distrair.
Não sabia por onde começar. Então olhei para TV e vi que um repórter estava na porta da faculdade que eu sonhava entrar. Então escrevi no caderno: " Por que isso aconteceu comigo?" 

"Você sabe a resposta."

Sim, o caderno respondeu para mim. Eu esfreguei os olhos, olhei para o lado e analisei a letra.

— Estou louco! Só pode ser isso!

Uma senhora olhou para mim e se afastou. Deve ter lembrado quem eu era, mesmo eu com boné.

Levei minha mãe para casa e fui trabalhar. Ela não dirigiu nenhuma palavra pra mim. 

Fui ao banheiro da oficina inúmeras vezes para ver aquela frase sozinho. Meu chefe ficou irritado e disse que, se eu fosse mais uma vez ao banheiro, não trabalharia ali, mesmo acreditando em mim, ele tinha medo do que eu podia fazer com ele, por isso sempre pedia para um policial ficar na porta da oficina.

Pensei: " A letra não era minha. E eu saberia que fui eu quem escrevi."

 Ao chegar em casa, olhei mais uma vez.

Na geladeira, estava outro recado:

"O Dylan quer falar com você, mas isso só acontecerá com a minha presença. Domingo, na igreja, os pais dele estarão lá. Você irá assistir à missa até o fim, e comigo ele irá falar com você." 

Peguei o bilhete e, em um ataque de fúria, rasguei e joguei com ódio no lixo. Precisava falar com Dylan a sós. Ele precisava saber sobre o caderno; ele acreditaria nessa loucura.

Ao chegar na igreja, estava vestido com o terno do meu avô. Estava mais magro que antes e parecia que naquele terno caberiam mais três de mim.

Quando vi o Dylan, não acreditei. Faziam alguns meses. Até barba ele deixou crescer e se desfez do seu estilo hippie e das pulseiras. Nem parecia o Dylan louco que eu conhecia.

— E aí, Dylan? Está bonitão! — sorri pra descontrair.

Meu pai estava tão próximo de mim que nem parecia que eu não sentia seu perfume há tempos. Nem na mesa eu sentava perto dele. Nosso único contato eram os bilhetes, e eu nem ao menos podia responder.

— Como você está, melhor Dylan? - Disse meu pai sorridente. - Verdade que você conseguiu entrar na Faculdade de Boston? Fico feliz. Vai ser bom morar em outro lugar longe daqui. Vai te fazer bem, com certeza.

Nunca vi o Dylan tão desanimado como estava agora. Parecia que ele não estava lá. Ele nunca quis morar em outro lugar. Queria fazer faculdade aqui e casar com a Britney. Percebi que ele não usava aliança. Aquela aliança era de um juramento que ele fez no primeiro dia em que a conheceu. Tudo por causa de uma visão que teve. Ele a viu em um sonho e, do nada, a Britney foi transferida para nossa escola. No dia em que Dylan chegou em casa para me buscar, com um sorriso mais intenso do que o normal, disse:

— Você não vai acreditar? Acabei de sonhar com a mulher da minha vida!

— Elisabeth Taylor? Melhor, a rainha Elizabeth?

— Não, essas são as outras.  — Nunca vi um adolescente ter queda pela rainha Britânica, mas Dylan era. — Seus cabelos são negros e sua pele dourada do sol. Ela ama roupas coloridas e seu nome começa com B. 

— Boba! Você achou o melhor nome para  mulher da sua vida. - Rimos.

Ele deixava eu chamá-la de Bobo também. Ele sabia que era. Quando chegamos à sala, apareceu a menina que ele descreveu mais cedo. Eu não acreditava, mas disse que ele já a tinha visto. Fingi acreditar na sua ilusão. E no intervalo, ele se apresenta e entrega a aliança, e os dois acabam felizes para sempre... ou até tudo acontecer. 

— Dylan cresceu. - Disse sua mãe, que estava irreconhecível. Parecia uma empresária de sucesso. - Consegui uma promoção e vamos morar no mesmo bairro que o Dylan. Vamos vigiá-lo, mas, daqui a pouco, ele voa. Conheço meu filho, ele sim não é um assa...

Meu pai não se posicionava mais. E l vi me defendendo pela primeira vez.

— A senhora abaixe a guarda, que seu filho também o ajudou e estava no dia em que meu filho foi influenciado.

 Meu pai pegou no meu braço e fomos para casa.

Não consegui falar uma palavra com Dylan, e ele também não. Fomos para casa e ouvi minha mãe gritando e batendo a porta. Ela ficaria mais alguns dias trancada no quarto. Nos evitava.

Ouvi alguém bater na minha porta. Era meu pai, com um prato de comida, depois de meses sem perguntar se eu ainda sentia fome.

— Posso conversar com você?

— Claro! Você pode conversar sempre comigo.

— Desculpe por te tratar mal. Eu não tive coragem de acreditar em tudo isso. Sinto que você não conseguiria atirar em ninguém, nem ao menos pegar em uma arma. Aquele vídeo eu assisti apenas uma vez e sabia que não era você, mas seu dizia que sim. Porque fiquei ouvindo um monte de gente acusando você. A jaqueta era sua, fui eu que te dei e deduzi com certeza que você fez isso, mesmo sabendo o quão bom você é. Você não falava com ela, por que resolveu ir atrás?

— Você quer ouvir a minha versão?

Contei todos os detalhes, inclusive sobre o marido do tio de Mary.

- Eu te amo, filho! Desculpe!

Nos abraçamos.

Na mesma noite, resolvi ligar para o Dylan. 

— Oi, não desligue, preciso falar com você, é apenas uma pergunta.

— Sim! Eu gostaria de ouvir sobre as matérias do curso.  - Dylan falou em voz alta, para ter certeza que era da universidade e não eu.

— Vou ser rápido. Você ainda acredita em misticismo?

— Sim, ciências humanas!

— Escrevi em um caderno e ele me respondeu. Sei que não acredito nisso, mas a letra não é minha. Se você quer saber, eu vou trabalhar na oficina daqui a pouco. Leve o carro do seu pai, se puder. A gente não vai falar um com o outro, mas vou deixar o caderno com você. Se puder, me devolva à noite, deixando no quintal do seu vizinho.

— Certo, obrigado! 

Não nos encontramos, mas vi o carro do pai dele. Deixei o caderno no porta-luvas.

À noite, encontrei o caderno e havia um bilhete do Dylan:

"Que saudades, meu amigo. Claro que acredito. Eu e a Britney não estamos mais juntos. Descobri que ela está com Antony, aquele amigo do curso de francês. Nunca gostei dele, mas agora sei o porquê sonhava com ele segurando uma cobra. Deixando o assunto de lado, eu vou para Boston com a maior tristeza de sair dessa cidade que tanto amo. Deixei meu estilo hippie de lado e vou ser um homem de negócios. Logo eu, que queria ter apenas um trabalho de meio período aqui neste lugar. Para ser um dono de casa, enquanto a mulher da minha vida seria professora do primário. E eu cuidar dos nossos 11 filhos. Amigo, espero que volte a ser o cara mais racional e feliz que eu conhecia!

Atenciosamente,

Dylan


P.s. Seja sempre o Coração de gelo para alguém derreter. 

Ah! Olhe escrevi no caderno!"


Eu olhei desesperadamente para as folhas, e:

"Quem é você?"

"Sou alguém conhecido. Você é o Dylan, o cara hippie."

"Como você sabe que eu sou hippie? Já nos conhecemos?"

"Sim."

Fechei o caderno rapidamente. O Dylan só poderia estar louco! Como ele conseguiu se comunicar com isso? Joguei o caderno no chão, desacreditado.

No dia seguinte, fui trabalhar e, ao chegar em casa, vi o caderno no mesmo lugar. Minha mãe não entrava no meu quarto e meu pai estava fora a semana toda. Olhei o caderno e resolvi ter coragem de ler toda aquela mentira.

"Como assim? Me diz quem é você?"

 "Sou a Mary."

Ao ler, fiquei mais incrédulo do que antes. Resolvi procurar o bilhete de Mary, mas estava no quarto dos meus pais. Minha mãe tomava remédio para dormir e eu sabia que poderia fazer barulho, pois ela só acordaria quando o efeito do remédio passasse.

Fui até o quarto e vi que o cofre do meu pai seria o único local onde isso poderia estar escondido. Antes, ele confiava muito em mim e eu sabia a senha, mas duvido que ele deixaria a mesma. Tentei a senha antiga e o cofre abriu. Ele confiava ou talvez tivesse esquecido de mudar.

No cofre estavam algumas notas de dinheiro — bem poucas, pois ele usou quase tudo para pagar o advogado. Também estavam alguns documentos e o bilhete de Mary. Peguei-o rapidamente e fui para o meu quarto.

Li aquele bilhete, que me fazia mal. Mas aquela letra era dela, embora não fosse o mesmo bilhete que eu li na casa de sua amiga. 

Abri o caderno e comparei as letras. Eram realmente iguais.

Peguei uma caneta e comecei escrever.

"Se for mesmo a Mary, descreva sua vida."

"Meu nome é Mariah. Tinha 17 anos, cabelo descolorido. Morava na Califórnia, com meu tio. O marido dele me assassinou há meses atrás e você e o Bryan o viram."

Ao ler, senti meu corpo cair. Vi tudo escurecer. Acordei com meu pai dando alguns tapas no meu rosto e minha mãe me olhava aflita.

— Bryan! Você está bem? — Deve ser fome. Ele não come direito há tempos. — Venha, meu filho. Farei um jantar para você.

Sentei na cadeira, aflito. Não conseguia me mover. Segurava o caderno com muita força. Minha mãe me perguntou, brava:

— O que é isso, Bryan?

Eu não conseguia abrir a boca.

— Me diz o que é isso, Bryan? Mais um dos seus problemas? Não faça mais nada, em nome de Deus!

Meu pai saiu de casa sem falar para onde ia. 

E eu não conseguia falar. Não consegui comer a refeição e fui para o quarto, aflito.

Minha mãe gritava: 

—Saí satanás perto do meu filho!

Tranquei a porta.

"Mary, é você?"

Senti meu corpo vibrar e ouvi um barulho de destruição, mas não era nada externo. Meu corpo ficou leve e apaguei. Ao acordar, não estava em casa.

Vi que o lugar em que eu estava era diferente. Cheirava a flores. Vi uma silhueta conhecida olhando para a janela. Era ela, mas estava bonita. Seu cabelo cor de chocolate estava de volta e seu olhar estava mais vivo.

— Mary, é você?

— Sim, sou eu! Você veio me salvar de novo!

O calor do abraço dela era tão intenso que parecia tudo real.

— Isso só pode ser um sonho.

— Aqui pode ser considerado um sonho, mas é muito real para quem sente.

Ela olhou para mim e beijou meus lábios. Nunca senti seu beijo, mas era muito macio e suculento. Senti um líquido quente escorrer próximo à minha barriga. Toquei minha camiseta e vi que era sangue. Me desesperei.

— O que é isso?

— Você não pode vir para cá. Mas não desista de mim!

Mary caiu no chão, igual à cena que eu vi no último segundo de sua vida. Ouvi o estrondo de destruição e acordei na minha cama.

— Foi um sonho!  Ainda bem.

Levantei e fui ao banheiro. Quando olhei no espelho, vi minha mão com sangue.

— Bryan!

— Oi, mãe! 

Ela batia com força na porta e meu pai forçou a porta até abrir.

Viram minha mão cheia de sangue e deduziram que eu quis tirar minha vida.

O telefone tocou.

Eu peguei o telefone antes do meu pai. Mas ele pediu pra colocar no viva voz.

— Oi, quem é?

— Senhor Bryan, trabalho nos Estúdios FX. Nossa sede fica na Califórnia. Recebemos uma indicação de seu professor de elétrica meses atrás. Gostaríamos de saber se você pode comparecer no dia 10 aqui na sede. Para ajudar com alguns computadores aqui.

— Desculpe, mas eu não posso!

— Sim, sabemos de tudo que aconteceu com você. Gostaríamos de oferecer esse estágio. Precisamos de técnicos de elétrica e gostamos de seu desempenho escolar.

— Sim, vou falar com meus pais.

— Espero o retorno. Pode ligar no número do meu ramal.

Ao desligar, fiquei confuso. 

Meus pais me olharam e perguntaram o que eu estava fazendo no quarto. Se eu queria acabar com minha vida. Minha mãe disse que foi Deus que fez aquela empresa ligar. Que ela iria junto comigo. 

Dei um beijo em sua bochecha. E falei que minha mão machucada foi por conta de um copo d'água. 

Liguei imediatamente pro Dylan.

—  Aqui é da Universidade de...

— Sim, vou chamá-lo. — Disse sua mãe.

— Alô, quem fala?

— E aí, Bobo!

— Oi, sim, é ele.

— Você precisa me ajudar.

— Sim, posso sim.

— Você estará disponível dia 10? Preciso ir para a Califórnia. Consegui uma entrevista de estágio para trabalhar nos Estúdios FX.

— Como assim... — falou em tom baixo o Dylan.

— Lembra do professor Park? Ele me indicou para algumas empresas meses atrás. E essa quer me oferecer um trabalho. Fora, que fica naquela cidade, poderei conversar com a amiga da Mary.

— Você pirou? Você vai sozinho? Minha mãe disse que vai comigo. Mas acho que ela não vai. Meu pai voltou a confiar em mim, vou conversar com ele, se ele achar ruim, vou mesmo assim.

— Você poderia ir comigo!

— Eu nunca menti pra minha família. Eu vou fazer o que naquele lugar?

— Se vingar!

Eu precisava voltar para aquele lugar.

Na manhã seguinte, conversei com minha mãe. Ela ficou feliz com a volta da minha amizade com o Dylan, mas pediu cautela. Falou que meu pai não precisava saber, pois Deus sabia de tudo e ela não conseguiria ficar longe da igreja. Fiquei preocupado em deixá-la, mas era necessário.

— Quem vai cuidar de você? Quando pai viajar?

— Eu posso pedir para a senhora British. Ela não vinha aqui por ter medo de você. 

— Telefonarei sempre e visitarei a senhora todo mês. Aqui está o endereço pra vocês saberem minha localização.

—  Filho, você promete que não vai pra aquela cidade próxima do seu futuro trabalho? 

— Prometo!

Menti para minha mãe.

Alguns dias depois, Dylan conseguiu conversar com seus pais e eles deixaram ele ir sozinho para fazer a matrícula, era mentira a matrícula foi feita dias antes quando ele disse que foi na casa de sua ex namorada, Britney e que voltaram. Mais uma mentira pra nossa coleção. 

—  Estarei na rodoviária às 15h, Bryan. A única pessoa que sabe disso tudo é minha tia avó.

— Quê? Não era pra você contar que vamos juntos. 

— Calma, ela é mística. Lê tarot e sabe de tudo.

— Você é maluco!

— Somos!

Na rodoviária, abracei meu amigo. Olhei se não tinha alguém bisbilhotando. Parecia que tudo voltou ao normal.

 Contei sobre aquela visão.

Peguei o caderno e ofereci ao Dylan. Vi que em sua mão havia uma aliança.

— Britney?

— Acabei de encontrá-la. Ela terminou com aquele cara e fará a mesma universidade que eu!


Ao chegarmos, ele entrou na casa da tia dele, que cheirava a todos os perfumes possíveis. O lugar estava cheio de plantas e flores, e nós sentamos no sofá. Dylan pegou minha caneta e começou a escrever no caderno.

"Olá, Mary. Você pode nos dizer o motivo do Bryan ter cuidado?"

Não tivemos resposta imediata, mas segundos depois, ela escreveu. Dylan estava distraído com a paisagem, e eu li em silêncio:

"Bryan não pode aceitar esse emprego."

Aquela mensagem me desconcertou. Estávamos muito perto de nosso destino, e aquela oportunidade poderia mudar minha vida para sempre. Peguei o caderno da mão de Dylan e guardei-o.

Me arrumei e fui direto para o estúdio. O segurança me olhou de cima a baixo e perguntou se eu era o menino que matou a namorada. Como eu estava mais magro e com barba agora, expliquei que ele estava me confundindo.

Uma senhora extremamente elegante me chama e me pede para preencher um monte de formulários. Ela me manda sentar e pergunta...

— Por que você aceitou fazer aquilo com sua namorada?

— Desculpe, eu não entendi!

— Por que você escolheu o curso de eletrônica?

— Desculpe, entendi errado!

Eu tive certeza que ela perguntou isso, mas respondi sobre o curso.

Voltei pra casa da tia do Dylan e ele não estava lá, porque tinha ido fazer compras. Abri a porta e quem estava me esperando era a sua tia. Ela me pediu para sentar e embaralhou as cartas de tarô.

Ela, humildemente, disse que estava vendo uma mulher no meu destino. Lembrei que o Dylan havia contado tudo para ela, então imaginei que ela sabia mentir direitinho. Mas quando falou que, nesse emprego, aconteceria algo que mudaria o passado, eu até acreditei.

Fui para a cama, mas não conseguia relaxar. Então, resolvi escrever no caderno: 

"Mar...

"Não vá para lá! Ele vai descobrir sobre você!"

Acordei assustado. Mais uma vez, dormi sem ao menos saber o que a Mary queria dizer. Fui tomar café e me preparei para o estúdio.

 Dylan falou que iria me encontrar na saída do estúdio.

O lugar era enorme. Atores e atrizes famosos ao meu lado. O escritório estava cheio de arquivos.

— Você deve ser o Dylan. Aqui precisa de uma organização. É só colocar as fitas em ordem alfabética. Caso precise de ajuda, estarei no galpão ao lado. — Disse um homem de barba branca e careca.

Encontrei o Dylan, adivinha com quem? Ele foi buscar a Britney. 

— Nossa, Bryan você está irreconhecível. Parece um matador...

— Britney! — Disse Dylan envergonhado. Eu amo você, mas é difícil viver com sua sinceridade aflorada 

— Ah, obrigada! Estou mesmo diferente.

Fomos para casa.

Fui para o quarto e liguei para minha mãe. 

Ela perguntou onde eu ficaria, mas eu menti que ficaria em um hotel com tudo pago pela empresa.

— Meu filho! Você é abençoado!

— Obrigado, mãe.

— Fique bem, mãe! Mande um abraço pro pai.

Minha mãe não quis me incomodar, mas meu pai saiu de casa há umas semana.

Desliguei o telefone. Dylan estava sentado e pediu para eu meditar com ele, sua tia e Britney. Que mascava o mesmo chiclete há muitas horas.

Todo dia, eu tinha a mesma função: organizar as fitas VHS em ordem alfabética. Não havia nenhuma outra tarefa. Eu não mexia em nenhum computador. Apenas abria a fita, colocava no videocassete, anotava o nome e a data, e depois guardava.

Fiquei no canto da sala e observei o quão grande era aquele lugar. Havia uma porta que estava trancada, e resolvi ver se realmente estava. Virei a maçaneta e vi uma placa: 'Entrada Proibida - Somente Responsáveis'. Provavelmente, era para gravações de filmes inéditos.

— Precisa de alguma coisa? — disse meu encarregado. — Nunca vi essa prateleira tão organizada. Você é rápido.

— Sim, obrigada. Você saberia me informar o que tem naquela porta?

— Claro que sim. Caso cheguem alguém gritando com você, dizendo que precisam pegar documentos do arquivo, você só deve abrir essa porta com a minha autorização. Lá ficam guardadas ideias e gravações que serão usadas no futuro, ou ideias dos diretores.

— Certo!

— Vou fazer assim, como você é um ótimo profissional. Toma a chave. Pode abrir no meu lugar!

— Prometa que nunca irá assistir nada daquela sala?

— Prometo!

— Sei lá, você não me é estranho!

- Ah, me confundem sempre com alguém. Meu rosto deve ser comum. - Ri de nervoso.

Vi o Dylan com cara de preocupado me esperando. 

— Você não imagina o que acontece? Estava vindo e, no caminho, vi aquele idiota. Ele estava cumprimentando umas senhoras. O sorriso amarelo e a cara de psicopata não engana.

— Eu sabia que a gente ia vê-lo uma hora ou outra. 

— Mas estamos diferentes. Você não usa mais roupas hippies e eu estou mais bem barbudo. 

— Previamente, a Mary falou para ter cuidado com esse cara. Não vamos andar juntos. Fique do outro lado da calçada e coloque esse boné e óculos que acabei de comprar.

— Você é louco mesmo.
Rimos.

—  Oi, meus queridos! Vocês estão bem? Ah, Bryan você tem uma correspondência. 

— Certo. Obrigada!

Ao pegar a carta, leio atenciosamente.

"Senhor Bryan,
Saia da cidade ou terá consequências."

— O que é? Você está mais branco do que o normal.

Dylan lê em voz alta.

— Como ele descobriu?

— Será que ele te viu?

— Não sei, mas não estou com medo.

— Já sei. Vamos avisar o seu advogado e a polícia.

— Mas eles não irão me defender.

— Vou dizer que minha avó está sendo perseguida, mas não falarei que você está aqui.

— Você ficou louco? E se foi sua tia? 

— Minha tia nunca faria isso!

— Se foi você?

— Ficou maluco. Eu me prejudicaria também.

— Vou ter que resolver isso sozinho.

— Eu, se fosse você, sairia daqui. Você está em perigo.

Eu não sabia quem contou para esse subprefeito que eu estava aqui. Pode ter sido a tia do Dylan. Ela faria isso?

— Sim, moleque... Aqui tem uma cama. Durmo aqui quando brigo com a minha mulher. Peça para as meninas da cozinha a chave. Tem um mini mercado há 30 metrôs daqui, pode cozinhar. Só limpe! Há não traga ninguém aqui!

— Sim, agradeço a ajuda.

— Certo, boa noite!

Tinham pessoas 24 horas por dia naquele lugar. Sozinho, eu nunca estaria. Então, fui tomar um ar no jardim e aproveitei para correr. 

O lugar era gigante e até parei para olhar uma gravação e comer meu lanche. Um moça com vestido vermelho sentou ao meu lado.

— Oi, meu nome é Amanda.

— Oi. — Limpei minhas mãos sujas do lanche que estava comendo e a cumprimentei.

Era uma moça com lábios rosados e seu cabelo tinha ondas perfeitas. Seu olhar era levemente puxado e os olhos negros, como a noite.

— Você é atriz?


— Não, sou estagiária. Eu ajudo na produção.


— Eu também sou estagiário. Só que fico no arquivo.


— Que legal! Deve ser divertido organizar o que a gente produz. Deve ter muito conteúdo.


— Sim, muito. Todo dia tem trabalho.


— Vou pedir licença. Vou ajudar meu encarregado. Qual seu nome mesmo?


— Bry...Bryan do arquivo.

Nunca reagi assim. Parecia um menino de 10 anos gaguejando para sua paquera secreta.

Antes de ir para o escritório, resolvi adiantar meu trabalho para o dia seguinte. Abri a porta, coloquei meu fone e deixei a música me contagiar. Horas depois, escuto ao fundo uma voz.

— Garoto!

— Me desculpe, estava distraído. — Nunca me pegaram dançando, e com certeza foi constrangedor.

— Quero acessar um conteúdo.

— Qual seu nome?

— John Rogers — Diretor.

— Assine aqui, por favor.

Abri a porta e acompanhei aquele senhor. 

Nessa sala, havia poucos arquivos e uma gaveta cinza que o homem abriu antes de sair sem ao menos me dizer adeus. Deixou aberta.

 Fiquei na sala e fui ver o que de especial havia naquele lugar.

Nessa gaveta, vi uma etiqueta com a data do dia do assassinato de Mary. Peguei e resolvi assistir. Achei estranho porque tinha a observação: urgente!

Era um teste para atores: meninos de 16 a 25 anos, 1,83m. Coincidentemente a minha altura.

— Precisamos de rapidez.

— Seu nome, pegue essa arma!

Eu olhei, esfreguei os meus olhos e me assustei. Eles eram parecidos comigo. Aqueles atores estavam sendo escolhidos para me interpretarem. E na outra fita eram caras parecidos com Dylan. 

Como eles conseguiram fazer isso tão rápido?

Fechei a porta e peguei a fita. 

Como não podia levar ninguém, fui até a produção da Amanda. Ela estava lá, e perguntei como fazia para ser figurante. Ela falou que conseguia numa boa. Falei que tinha um amigo que sonhava em ser ator. Eu já tinha ouvido falar que era fácil, até me pediram pra ser um dia, eu só precisava de uma autorização de entrada do Dylan e ela conseguiu. 

Precisava mostrar essa fita, longe da tia dele. Liguei pra ele.

— Dylan, por favor, venha imediatamente.

Veio mais rápido que pôde.

— Venha, olha isso.

Mostrei o vídeo e ele falou:

— Eu sabia, agora a gente pode condenar aquele cara.

A gente não sabe quem foi o diretor, mas essa voz e essa mão inchada é dele!

— Viu? Não foi minha tia.

— O quê?

— Foi alguém daqui que falou sobre você.

Olhamos um para o outro e dissemos:

— Vamos sair daqui antes que alguém saiba.

— Como fui tão energúmeno achando que ninguém sabia de mim aqui? A mulher que me contratou sabia de mim! Provavelmente, esse subprefeito descobriu minha formação e falou da vaga de professor.

A gente ia saindo de fininho quando a Amanda me chamou. Não podia negar, mas disse que meu amigo estava vomitando de nervoso e que não conseguiria atuar.

— Tudo bem, você tem meu telefone?

— Óbvio que não!

— A gente pode sair quarta para comer hambúrguer? Se quiser, pode me ligar. Esse é o telefone da minha casa. Eu gostei de você.

Eu também gostei dela, mas, infelizmente, acho que nunca mais a veria.

Voltamos para casa, olhando toda hora para o lado. Mas, como somos espertos, pegamos perucas e roupas de enchimento para andarmos na rua.

Dylan contou tudo para a tia dele. Ela tinha muitos amigos, e um deles era investigador. Ligou imediatamente para ele, que veio. Mostramos a fita para ele. Ele falou que ia pedir para reabrir a investigação, já que esse subprefeito não o manipulava, fazia isso por conta própria.

Na hora do jantar, lembrei do caderno e fui escrever.

''Você não seguiu minhas ordens.''

''Que ordens, Mariah?''

'' Você não quis que eu vencesse. Eu descobri que o marido do seu tio fez tudo isso.''

''Bryan, você precisa queimar essa fita?''

''Queimar?''

''Responda, voce que reescreveu o bilhete?''

''Sim, eu não quero prejudicar mais uma vez meu tio.'' 

''Prejudicar? Ele está nas mãos de um monstro. Que te matou.''

''Bryan, eu sou um monstro!''

''Mary, o que você fez de tão horrível?''

'' Eu estava grávida do marido do meu tio?''

''Quê?''

''Ele sabia que eu tinha um grande amor por você, só que ele proibiu isso. Disse que se eu esquecesse, teria tudo: casa, comida, sair pra onde quiser e ser popular. Meu tio, como trabalhava muito, nunca soube disso. Acabei me apaixonando.''

Mar...

Bati a cabeça no vaso sanitário.

Levanto e vejo Mary.

— O que estou fazendo aqui de novo? Por que você me puxa pra cá?


— Ou você cala sua boca ou morrerá, Bryan.

— Você vai tirar minha vida? Só por que eu quero me vingar por você... ser seu herói. Eu nem acreditava em vida após a morte.

— Vida, Bryan? Que vida é essa? Mil vezes viver como você vive. Um cara livre! Lá eu era presa, e aqui também.
Quero sua liberdade, mas você não me escuta.

Acordo. 

Passo a mão na minha testa e tem um pouco de sangue.

"Você irá se arrepender"

Aparece no papel, mas não vejo. 

— Oi, aqui é o Bryan. Sei que você falou que sai às quartas. Mas tem uma lanchonete próxima daqui. Topa ir?

Liguei imediatamente para Amanda, porque eu queria saber quem era o diretor daquela fita. A tia do Dylan disse:

Eu preciso falar algo para você. Eu sei que você está se comunicando com alguém que já se foi, com a menina que partiu.

Olhei para o Dylan e perguntei:

—Você contou isso para sua tia também?

— Eu juro, Bryan, eu nunca contei isso para minha tia. Eu falei tudo o que é real, mas as coisas místicas que estão acontecendo com você, óbvio que não. Eu queria realmente ter certeza de que isso é verdade. Lembrando que eu só conversei com ela sobre o caso. Eu queria juntar mais provas para isso, mas eu juro que não contei nada. Ela sabe muita coisa, assim, não falo nada! Ela adivinha!

A tia do Dylan continuou:

— Aconteceu algo muito parecido comigo há um tempo atrás. Eu me comunicava com o meu ex-namorado pelo caderno. Ele já tinha falecido. Então, eu fiquei assustada, assim como você está agora.


Eu fiquei em silêncio por um momento, absorvendo as palavras dela. Nunca imaginei que alguém pudesse entender o que eu estava passando. Mas isso também significava que ela sabia algo sobre esse tipo de experiência, algo que eu não conseguia controlar.


Saí imediatamente da casa, fui falar com a Amanda, que estava lindíssima, e resolvi contar tudo o que aconteceu, de quem eu era, por que eu estava trabalhando lá. Menos que me comunicava com mortos. 

— Você é o menino que matou a namorada?

— Ela não era minha namorada.

— Eu e minha amiga ficamos fissuradas com esse caso. Como eu não te reconheci? Eu conheço pessoas de vários lugares. Eu sou boa de memória fotográfica.

— A barba me deixou diferente, eu acho.


— Você quer que eu saiba quem é o diretor? Isso é fácil. Toda fita, nos segundos finais, tem a sigla do nome.

— Você pegou a fita?

— Sim!

Chegamos na casa. Eu sempre ficava desconfiado, achando que alguém estava me perseguindo.

Mas nunca tinha ninguém.

— Como alguém pode ser tão burro a ponto de pedir para uma grande rede de produção de filmes fazer uma triagem de pessoas para algo criminoso? Uma hora, alguém ia descobrir. As pessoas veem aquelas fitas várias vezes para procurar atores. Cara, quem fez isso foi o mundo burro.

Eu estava fissurado na inteligência e na beleza da Amanda. Era a perfeição pessoal.

— Pause aí! Então, é este nome a sigla SD. O diretor é o Sam Dillon.

— Você disse que é boa em memória fotográfica. Reconheceria o subprefeito?

Mostrei a foto dele.

— Bom, o subprefeito, peraí, eu vi esse homem no estúdio, porque é necessário que às vezes a subprefeitura de alguma cidade venha para fazer propaganda de alguma propaganda ou para marca ou turismo, mas eu não me liguei que ele era do seu caso, já que todas as mulheres da minha idade ficaram fissuradas em você.

— Quê? Como assim?

— Bryan deu risada. Menina, ele tem a síndrome do patinho feio. Todas as garotas eram fissuradas por ele, mas ele só tinha olhos pra uma só.

— Prazer, Dylan!

Eu sempre fui mais na minha.

— Ele já perdeu grandes oportunidades, não pode perder mais.

— Cala boca!

— Eu preciso ir, Dylan. Ainda bem que você achou o diretor mesmo, mas ficou preocupada se realmente o subprefeito saiba que você tá aqui. Então, cuidado. 

A tia chegou na sala e falou:

—  Meu amigo é investigador que tá cuidando do caso.. Se quiser, ele leva você até a sua casa pra você ficar menos preocupada. 

— Se esse homem é capaz de gravar um filme mentindo. Ele pode tudo. Obrigada, tia. De verdade.

 Dei um beijo no rosto da Amanda.

— Obrigada. Você foi uma pessoa muito incrível. 

E ela vai embora. 

Desconfiado eu olho para os lados.

 Dylan, pergunta assim pra mim:

— Ei, aquela carta que você recebeu? 

— A carta está em cima da mesa.


Dylan abre e pergunta... 

— A letra é mesma Mari!

— Como assim? 

Eu vejo a carta e realmente, a letra não é do subprefeito, é a letra da Mary.

Como ela consegue escrever cartas, assim, do outro lado da vida? 

A tia sai da casa e fala:

— Vocês precisam conhecer um amigo meu Ele... Ele conversa também com os mortos. Foi ele que me ajudou Quando o meu namorado se comunicava comigo. Então eu acho que pode falar melhor sobre isso. Se ele quiser, a gente vai até ele.

Chegamos em um lugar que tinha uma mesa branca, tinha cadeiras de madeira, e um homem todo calmo veio falar com a gente.

— Menino! — abraçou o Dylan — Sua tia ligou pra mim e falou sobre isso. Quero realmente falar pra você como é essa comunicação existe. É uma lei universal que se chama contatos com pessoas do outro lado. É a outra dimensão, se comunicando. A gente tem uma alma no nosso corpo, que a gente quando falece, a gente sai e somos transportados para essa outra dimensão. Essa outra dimensão pode ter contato ou não com aqui. Quem tem contato, às vezes, é quem tem muita saudade, ou é uma pessoa muito obsessiva em relação a aqui e agora. O que ela pode fazer? Se comunicar. Do modo mais arcaico.

— Comunicação arcaica — Fala o Dylan sorrindo.

— Sim, ou ela pode ter uma reencarnação aqui. 

— O que seria uma reencarnação? — pergunto.

— Chega uma criança, um nascimento, e nisso, na fecundação, essa alma vai direto para esse feto. Então ela cresce, ela se desenvolve, e ela tem até mesmo algumas lembranças. Algumas crianças têm lembranças dessa outra vida. Então a reencarnação é isso. O Dylan foi o namorado da tia dele!


— O quê? Eu sou namorada da minha tia? — Dylan ficou pálido.

— Quer um copo d'água?

Dylan tremia.


— Eu não sabia que a sua tia contou sobre isso?

Fiquei pensativo. Esse cara não é adivinha? Como não soube ficar quieto?

— Ela ia contar alguma vez na sua vida. Você é um cara que gosta tanto de misticismo, uma hora você ia saber, uma hora você ia sentir. Então, o que eu posso falar? Você se comunicava com ela, e nisso, como você queria muito viver uma história com ela, da forma que fosse, você pediu para reencarnar. E nisso, como a sobrinha dela estava grávida, porque a sobrinha dela queria engravidar muito, e ela avisou pra você e deram a oportunidade de você reencarnar. E você veio! 

Eu fiquei pensando.

— Quer dizer, então, se pra pessoa reencarnar, ela tem que meio que pedir?

— Na verdade, não! Não tem uma regra específica para a reencarnação, né? Porque é a lei universal que comanda tudo. Mas se a pessoa pedir, muitas vezes acontece, sim.

— Então, a minha amiga, pode parar de falar comigo só por que tem a missão de voltar? Ela fala que queria ter liberdade.

— Liberdade ninguém tem. Tem uma coisa chamada karma, depois eu vou mostrar um livro sobre isso. Mas, que tal a gente se comunicar com ela agora, só pra eu saber sobre ela.

Ele pediu o caderno, e começou a escrever, e a Mary não respondia. 

— Elas não escutam tudo o que acontece aqui na Terra. Mesmo que ela escreva, ah, eu sei disso, eu sei que a pessoa faz aquilo, ela não tem essa oportunidade de ver tudo. Ela pode sim, quando ela está muito obsessiva, ela tem chance de escrever cartas pra cá e tenta observar tudo, mas ela vai sempre ver algo muito aumentado. Por exemplo, se ela escutou que você é um cara ruim, ela vai ter certeza que você é um cara ruim, porque ela está tão obsessiva com isso, que não importa o que se fala. Se é verdade ou não, ela vai entender como é verdade absoluta. Então, eu vou fazer assim, você vai se comunicar com ela, e vai falar tudo o que você sente em relação. Se ela não responder, você vai ter que partir pra parte que ela não vai ouvir, que alguém precisa engravidar próximo de você. 

— Espera, moço, você tá falando pra eu manipular uma gravidez de alguém pra ela reencarnar? Isso é loucura!

— Na verdade, meu querido, o destino sabe de tudo. Então você não vai manipular nada. O que tem que acontecer, acontecerá. Se não é pra ela vir, ela não verá. Você irá saber.

Fomos para casa. Faltava só três dias para o Dylan voltar pra sua residência, pegar suas malas e ir para a faculdade. A Bryt foi junto. Só que eu ouvi a conversa deles dois. 

— Aí, eu não quero fazer faculdade agora, amor! Eu tenho certeza de que eu posso me ter dinheiro de outras formas. Eu tenho uma família rica. 

— Eu sei, meu bem, mas você não queria ser professora?

— Quero, mas queria ter um filho. Temos 20 anos. Seria muito legar ter quarenta e ter um filho de 20. 

— Eu sei.

— Você termina seu curso, mas será um pai. Prometo que quando você acabar eu faço uma faculdade.


Eu nem sei porque sou amigo desses dois. Eles fazem uns planejamento doidos.



 que a gente quer um filho, mas eu preciso ter um emprego para pagar para os meus filhos. Eu trabalho para minhas famílias, meu Deus do céu. Dinheiro que não falta para mim. Mas eu posso me libertar de viver.

Essa portinha é doidinha demais. Enfim, engravidar. Eu tenho que usar... A Maria pode vir pra cá. É só... É só o que mesmo que ele falou que eu tinha que ter carinho pra essa criança que não existe. Mas ter carinho, provavelmente, se eu falar com a Maria, falar que provavelmente o meu amigo quer ter um filho, eu quero ser padrinho dessa criança, tudo se encaixa.

Claro que vai me atrapalhar. Eu vou resolver até a criança crescer, ter uma memória boa e poder resolver esse caso, certeza.

Dilan, desculpa, eu não pude notar de ouvir vocês dois falando sobre isso, mas eu queria tanto ser padrinho do Tietchan. Eu sonho, eu adoro criança, de verdade. Mas é claro que você será o padrinho da nossa criança. Vai acontecer algo que vir com a gente, é claro que você vai cuidar dos nossos filhos. Os onze. Meu Deus, onze filhos.





Ao voltar ao meu trabalho vejo uns caras tentando abrir a porta do arquivo.

- Querem alguma coisa, meus senhores?

Me olharam de baixo para cima.
- Quero falar com seu encarregado. Quem mandou deixar a sala trancada.

- Meu querido! Eu deixei porque ainda não deu o meu horário para começar a trabalhar. 

Abri a porta e o cara foi em umas da prateleiras.

- Até que o esquentadinho sabe organizar esse lugar.
- Você pode abrir aquela porta.
- Não posso. Qual é o seu setor e seu nome. Você pediu autorização?
- Eu sou produtor do novo filme. Preciso de algumas seleções. 
- Vi dois atores muito bons, mas perdi os contatos deles.
- Você sabe o nome posso ver aqui.
- Sim. Carlos Richard e James Patrick. Gravação 09838581.1982.90.
- Ao pesquisar vi as fotos dos caras vi que eram uns dos que pareciam comigo.
- Meu senhor, só consegui de um.
- Como assim? O outro esta sem contato. Posso falar com meu encarregado e aviso no seu setor.
Passei o telefone de um e não abri a sala. Fiquei tenso. Pensei que ele queria ver a gravação.

- Senhor Edward.
- Sim! 
- Tem um amigo seu aqui na portaria. Disse que deixou seu caderno de estudos aqui. 
- Já vou buscar.

O Dylan podia ser maluco. Mais ele deixou a fita em um livro falso. 
Antes de guardar eu vi de novo até o final. Nunca senti tanto ódio. Era uma gravação com dois atores parecidos com a gente com a mesma roupa e fazendo tudo aqui que a gente não fez. Eu pesquisei tudo sobre esse atores naquela tarde. 

Não consegui me despedir do dylan, mas ele deixou um recado para mim:

" Vou para Boston, mas estarei aqui no final do mês. Vou trazer a Britney. Juízo!"
Obs: Dê o seu endereço e seu telefone para minha avó.

Abraço de seu amigo.

Ah! Sonhei com você e sua nova amiga. Ela é gata, hein! Gostei dos olhos puxados dela.
E de novo a Britney quer proibir você do seu sonho. Pode ser ciúmes. Caso eu sonhe com algo te aviso.
Até mais!"

O cara é louco e adivinha.
Fui avisar a avó do Dylan e resolvi converar com ela sobre meu emprego. 

Chegando na minha nova casa. Vejo a Amanda no caminho.
- Como foi o curso?
- Foi legal, mas gostaria de estar em casa. Hoje minha amiga comemorou sua promoção no emprego. Pensei que você estava nesta reunião. 
- Não. Fui na casa da avó do meu amigo. Esperei você chegar. Nem conheço sua amiga.
- Não fique envergonhado. Ela é querida. Você tem que conhecer a família dela. Eles são incríveis. O Pai dela vem todo final de semana jogar Atari com a gente.
- Que legal! Eu deixei o meu casa. Vou jogar sim. Eu sou um dos melhores que joga.
- Certo! Quero ver.

Entramos na casa e conheci a amiga da Amanda. Ela já tinha seus 27 anos, formada em jornalismo. Seu namorado era um cara falador e era sócio de uma produtora de comerciais para TV. A Amanda era só 5 anos mais nova, mas era mais velha que eu. Conversarmos e bebemos vinho. E Como já era tarde fui para o meu quarto. Apesar de ter visto aquela gravação. Não queria pensar sobre isso sem o Dylan por perto.

Passaram os dias e nada de interessante aconteceu. Organizava todos os arquivos. Eu gostava de ver a Amanda indo embora. Então chegava mais cedo. 
- Amo trabalhar de madrugada. Chego em casa de dia, durmo a tarde, corro vou para o curso e depois para casa. Mas vou confessar já estava desmotivada com a rotina e você apareceu para eu dormir um pouco mais tarde.

Ela sorriu e com era sexta-feira perguntou se eu ia fazer alguma coisa a noite e perguntou se eu queria conhecer um bar novo na cidade.

- Com certeza. 
- Você sabe dirigir?
- Sim.
- Eu vou sempre para o curso sem carro. Você me buscar com o carro da minha amiga. Ela estará na casa do namorado dela e só volta no domingo com o pai dela.
Vou falar com ela. E ela deixa a chave com você.
- Certo. 

Volto para casa. Meu curso começa no mês que vem, mas estudo o conteúdo. Deito um pouco, ligo a TV. Fico curioso com o que tem na casa das pessoas. Vou no quarto da Amanda e vejo as fotos de sua família. O quarto da dona da casa está trancado. 
Ela chega em casa com roupa de academia. Mesmo suada ela cheira a uma senhora milionário.
- Oi, Bryan! - responde ofegante. Quer jantar? Vou pedir uma pizza. A Amanda disse sobre o carro, aqui as chaves. Não esquente com os CDs que eu ouço, amo músicas pops. Ah, Se você puder levar ele para lavar amanhã. Aqui esta o dinheiro para gasolina e a lavagem.
Nunca vi tanto dinheiro para um carro. 
- Sim, mas não precisa de tudo isso.
- Como eu vou usar eu faço esse serviço. Gosto de lavar carros.
- Ah! Você sabe? Sim, só preciso de sabão.
- Certo! Se ficar bom, vou pedir sempre. Fique com o pagamento.
- Não precisa eu mesmo pago a gasolina.
- Bryan, não se preocupe. Você é um ótimo hospede. Fique com o dinheiro para as próximas lavagens. Se for ruim, você cozinha para gente.

Comemos e fui buscar a Amanda.
Entrei no Ford Galaxie cor azul céu e coloquei para tocar as músicas.

- Não sabia que você era moderninho.
- Só sou Velho na aparência, mas sou mais novo que você.
- Eu cuido da minha alimentação. Não como aquele hot dog dos estúdios. O que ele colocam naquela salsicha? Plásticos? Porque tem gosto de um.
- Já comeu plástico? - Eu ri. - Eu gosto de comer comidas diferentes. Acho que plástico é o novo alimento. 
Ela entrou no carro e fomos até o bar. Ela estava linda, com calça jeans, camiseta branca e um salto alto colorido. Seus brincos estavam escondidos em seu cabelo volumoso.
- Você está linda. 
- Obrigada, você também.
- Mas eu nem usei perfume.
- Não gosto de cafa que o perfume vem antes dele.
- Nossa, olha o que eu lembrei. Um dia no metrô um cara estava sentado lá na frente, mas o perfume dele estava forte que uma senhora começou a espirrar de propósito. Ainda bem que ele saiu na próxima estação. Senão a gente ia expulsar ele do vagão. Todos aplaudiram sua saída. Fiquei pensativo...
- Será que ele sabia?
- Acho que ninguém avisou. - Ela disse.
- Quando eu estiver fedorento você me avisa, por favor! Mesmo que eu tenha tomado banho.
- Aviso sim, pode deixar. - Ela riu.

Entramos no bar. Estava cheio. Sentamos e um lugar próximo ds entrada. Bebemos, contamos sobre os nossos dias. E de repente o bar fica em silêncio. Entra um senhor e ele vem em minha direção. 
- Oi, Amanda!
- Oi, tio! Como você esta chique. - Ela o beija no rosto e compromenta o outro homem. - Nunca vi um casal tão chique.
- Cadê a minha filha? - Disse ele sorrindo e cumprimentando outras pessoas.
- Ela está na casa do Bill. Ela disse que você buscará ela amanhã.
- É mesmo. Já ia direto para sua casa. 
- Quem é esse moço?
Ele nem olhou em meu olhos e Já veio um grupo de pessoas falando com ele.
- Esse meu tio não pode chegar em nenhum lugar que vem várias pessoas.
- Eu nem apresentei vocês.
Eu fiquei parado e sem reação.
- Oi! Bryan! Você está bem? Está pálido. Quer ir embora?
- Sim, não.
- Mesmo.
Aquele era o senhor que matou a Mary na minha frente. Ele não lembrou de mim. Eu só estava um pouco diferente. Ele estava pouco metros da minha frente. Seu marido tio da Mary estava feliz. A morte da Mary não o transformou.
- Vou lá fora tomar um ar. Acho que foi a pizza que comi mais cedo.
- Você comeu a pizza que a minha amiga pediu. Aquela pizza eu tenho certeza que é de plástico. Ela riu. Mas me deixou lá fora.

Eu fiquei escondi para ele não me ver. Desejei que fosse embora ou eu ia sem a Amanda se fosse preciso. Ele e seu marido entraram no carro e eu voltei para o bar.
- Ir lá fora te fez bem. 
- Ele te mandaram um abraço. Mesmo sabendo que nem viu você direito. Falei do Atari e ele falou que dúvida você vencer dele.
- Ah, eu duvido mesmo. - Falei baixo. Acho que ela nem ouviu.
Voltamos para casa. Chegamos rindo porque eu contei sobre o Dylan. Falei sobre as histórias que ele contava e mostrei o que escrevi.
- Eu amei aquela ali. Amo extraterrestres. Você é um ótimo escritor, mas seu amigo tem uma imaginação incrível.
- Ele disse que somos almas gêmeas. No dia que ele falou que éramos fiquei assustado. Achando que ele estava apaixonado por mim, mas ele me explicou que não necessário almas gêmeas serem apenas amantes. Pode até ser seu cachorro da infância. Eu não acreditava nele, mas gosto de ouvir o lado místico dele.

Contei sobre a história de amor de Dylan e Britney.
- Eu preciso conhecer seu amigo. Eu amo signos. O meu é leão. Dizem que eu sou a mais leonina de todas. 
- Não acredito em signos. Isso é pseudociência. Mas o Dylan me explicou a respeito e você chama atenção com a sua beleza.
- Agradeço. Posso adivinhar o seu? Você é muito misterioso. Deve ser escorpião. 
- Errou! Sou de Peixes. Faço aniversário em Março. Sei meu ascendente que o Dylan sempre diz que eu sou muito ele.
- Qual?
- Aquário.
- Você parece aquariano. Mas seu olhar tem muita paixão de um pisciano.

Ela se aproxima de mim. E seu cabelo balança conforme sua aproximação. Meu coração acelera. Eu coloco minha mão em seu rosto e aproximo meus lábios nos dela. Foi um beijo intenso que ela fecha os olhos. Ao abrir ela fala:
- Eu te brilharia para sempre.
- Se quiser comece agora.
Nos beijamos por muito tempo. Meu corpo estava em chamas, mas não estava afim de ficar mais próximo dela naquela noite. Eu estava sem acreditar que o pai da dona da casa era aquele idiota.
- Melhor eu ir para o meu quarto preciso terminar de responder um questionário do curso.

Ela aceitou minha decisão. Nos beijamos um pouco mais e fui para o quarto.
Tranquei a porta e peguei o caderno. Precisava conversar com alguém. O Dylan não atenderia o telefone aquele horário. Ele estaria fazendo coisas de casal com a Britney. A última coisa que queria fazer era me destruir, então lembrei de Mary.
Comecei a escrever.

"Mary, você ainda está aqui?"

Esperei e ela não respondeu.

Ao deitar, peguei para ver se ela respondia e nada.

Na casa de Britney. Dylan estava dormindo no quarto dela. Mas não deixava Ela dormir. Ele se revirava na cama e Britney ficou incomodada.
- Amor, amor acorda!
Você está tendo um pesadelo.
Dylan acorda assustado e suado.
- Britney! Você está aqui. - Ele a beija e abraça como se não visse ela há anos.
- O que houve?
- Acabei de sonhar com a Mary. Ela deu tapas em mim. Ela começou a me xingar. Eu não entendi. Ela tem que falar com o Bryan. Não comigo. Eu com raiva disse sobre a amiga dele. Disse que ele estava conhecendo outra pessoa.
- Ela deve estar com ciúmes agora. A gente tem que orar pela alma dela. Ela deve se libertar daqui da matéria e do Bryan.
- Por isso que eu amo você. Vamos orar.

Os dois se ajoelharam e oram para alma dela.
Na madrugada, eu acordo para ver se a Mary me respondeu. 

"Oi."
"É você? Preciso te contar o que descobri."

Escrevo tudo o que aconteceu e não conto sobre a Amanda.

"Você esqueceu de mim?"
"Não esqueci. Eu não queria me preocupar mais."
"Quer dizer que eu sou sua preocupação?"
"Você que procurou essa preocupação. Era só não ter falado comigo quando estava na sarjeta."
"Fique com sua nova namorada. Façam amor, conheça a família gigante dela, tenha filhos.
Isso só acontecerá se aquele idiota não matar você antes."
" Você está precipitada. Como você soube da Amanda? Você vê a gente?"
Fiquei preocupado. Ela sabia de tudo.
"Vejo."

Ela não responde mais.




  

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