COMUNICAÇÃO ARCAICA
— O que aconteceu? — Meus pais morreram em um acidente de carro.
Dei um leve suspiro, pois não aguentava mais frequentar o mercado da família dela, onde sua mãe sempre me humilhava, dizendo que eu não seria nada e que sua filha nunca ficaria comigo.
Eu não tinha palavras para ajudá-la. Na minha família nunca alguém tão próximo tinha morrido, então apenas abracei.
— Preciso morar com minha avó na Califórnia. Aqui está meu telefone. Pode me ligar quando quiser.
Ela saiu e uns dias depois liguei para esse número, mas sempre a avó dela dizia que ela estava ocupada ou tinha saído com o tio. Um tempo depois, aquele número ninguém atendia e tive que esquecer Mary de qualquer jeito.
Anos depois, meu amigo ia visitar sua tia avó na Califórnia e ele me chamou para irmos juntos. Eu aceitei porque era o mesmo lugar que Mary estava vivendo, sei que é um lugar muito habitado, mas iria descobrir sua locação de alguma forma.
Eu e o Dylan pegamos o carro do pai dele e fomos em uma lanchonete, pedimos um lanche e uma Pepsi.
— Morro de saudades da Britney.
— Não faz 24 horas que vocês estavam juntos. E era tanto amor que eu vi de longe e pensei que vocês eram um só. Ou ela tinha engolido você. — Rimos.
— Você bem que poderia pedir aquela menina do seu curso em namoro.
— Minha mãe iria amar isso, já eu não sinto nada por ela.
— Ela tá bem iludida. Conversa com ela quando voltarmos, não deixe uma garota com ilusão, você nem imagina o que uma garota pode fazer com você.
— Espero que ela não me engula. Essa função é da Britney para com você!
Dylan ficou pensativo.
— Você sabe pelo menos o sobrenome da Mary?
— Sei. Golden.
— Aquele telefone será que ainda existe?
— Eu tentei e estava fora de área.
— Sua mãe não falava com a mãe dela. De repente ela pode dar alguma dica.
— A mãe dela só falava oi e tchau.
— Tente, ligue para sua mãe.
Eu fui em uma cabine telefônica e minha mãe atendeu.
— Mãe!
— Filho, aconteceu alguma coisa?
— Você sabe alguma informação da mãe daquela menina que eu andava de mãos dadas na igreja?
— Sim, os pais dela morreram em um acidente. A senhora Goodman falou que ela foi para longe, mas que depois de um tempo a avó dela faleceu e a menina ficou na casa do tio. Provavelmente em Glendale. — Sim, passei por perto. Obrigado!
— Caso a veja, mande lembranças!
Desliguei a ligação e pedi para o Dylan voltar nesse lugar.
— Sim, vou ligar para minha velha dizer que chegaremos tarde.
No caminho paramos para ver o pôr do Sol. Escutei um choro ao fundo e o Dylan brincou comigo.
— O senhor "Coração de gelo" agora chora com a despedida do Sol?
— O Sol nunca vai embora, só se oculta no horizonte.
Eu disse super bravo. Olhamos para trás e na guia estava uma moça de cabelos loiros descoloridos chorando desesperadamente. Saí en Toquei em seu ombro, eu reconheci o olhar mais marcante que já tinha visto.
— Mary? — Eu a reconheceria em qualquer fase de sua vida, mas aquele olhar estava ferido e roxo. — O que houve?
Ela mudou o tom de sua voz e colocou rapidamente seus óculos escuros.
— Bryan, quanto tempo. Como você está bonito! — secou o rosto imediatamente.
Dylan veio rapidamente ao nosso encontro.
— Mary, sou o Dylan, amigo desse bonitão. Lembra de mim? Eu era gordinho. Agora estou grande e...
— Careca! — Mandei essa para descontrair. — A gente está indo pra Los Angeles.
Eu fiquei preocupado e só queria saber o motivo de Mary estar assim. A mochila que ela carregava parecia tão pesada...
— Acabei de perder meu emprego. Sofri um pequeno acidente. Uma lata de atum caiu no meu rosto e o dono disse que eu fiz isso de propósito para me ausentar.
— Você quer que a gente te leve para casa?
— A última coisa que quero é voltar para lá. Uma amiga está em casa e hoje ela resolveu dar uma festa para comemorar sua maioridade. Querem ir?
Eu achei estranho, mas eu precisava saber mais sobre ela.
Chegamos em um casarão, som alto e várias pessoas. Mary falava com todos e todos a recebiam bem. Ela parecia popular.
— Meninos! — Ela acenou de outro cômodo. Fiquem à vontade. Vou falar com a minha amiga e já volto.
Pegamos algumas bebidas e conversamos com algumas pessoas que elogiavam bastante a Mary. "Ela é tão trabalhadora", "Ela me ajuda com trabalhos da escola", "Ela merece namorar alguém bacana". Fiquei feliz ao ver aquela menina tímida se tornar uma pessoa tão querida.
Um tempo depois, Mary desceu as escadas bem maquiada. O roxo dos olhos era imperceptível, mas ela resolveu colocar os óculos mesmo assim. O vestido azul a deixou tão bonita que nem parecia a menina que vi chorando há algumas horas atrás.
— Oi, Bryan! Gostando da festa? Eu não estaria aqui se não fosse você. — Ela me abraçou.
— Lembra que eu iria te salvar algum dia? Acho que esse dia chegou.
Ela abriu um sorriso tão genuíno que parecia que eu voltei alguns anos atrás.
— A piscina está vazia. Vamos lá! — Ela segurou minha mão. A mão dela era macia.
Com os pés na água, olhei para Mary. E disse:
— Por que você não me procurou? Você tinha meu número eu viria até você até de bicicleta.
Ela tirou as mãos de mim rapidamente.
— Eu fiquei muito triste com a morte dos meus pais. Minha avó faleceu no mesmo mês e tive que ir morar com meu tio e o marido secreto dele. Meu tio trabalha muito, por isso que eu também prefiro trabalhar muito do que ficar em casa. Minha família agora são essas pessoas. Não te procurei por não saber mais o que fazer, não teria assunto e... Não sou mais aquela menina...
— Você sempre será, para mim, aquela minha amiga.
—Mary! - Falou sua amiga. - Você pode me ajudar na cozinha?
— Sim! Já volto, Bryan.
Voltei para a sala e vi que já era tarde.
— Bryan, vamos! Seus pais já devem ter ligado pra minha tia.
Dissemos adeus para as pessoas e, quando eu ia me despedir de Mary, sua amiga disse que ela já tinha ido.
— Ela acabou de sair. Deixou um bilhete para você.
— Como assim? A gente ia dar carona pra ela. — eu fiquei sem entender.
"Meu telefone e meu endereço"
Att, Mary
Fomos embora e, no caminho, Dylan ligou seu toca música e no último volume tocou a música do Billy Idol - Dancing with Myself, Dylan estava tão feliz por mim que disse:
— Se esta noite eu não sonhar com minha Britney, vou desejar que eu encontre você e a Mary dançando em uma danceteria.
— Que original! Nem sei se estou tão apaixonado assim. Foi uma surpresa e meu coração acelerou ao olhar pra ela.
— O Senhor coração de gelo está derretendo! — Dylan me deu um soco no coração.
Ao olhar pela janela, vi um carro parar ao nosso lado.
— Pare! — falei baixinho.
Um homem com uma jaqueta preta, cabelo grisalho, saiu desesperadamente do carro, pegou o braço de uma moça com tanta força que ela caiu, fechou a boca dela com fita e olhou para minha janela. Percebi que conhecia aquela moça. Era a Mary. Ele pegou uma arma e atirou na direção dela. Vi a cena e Dylan ficou muito assustado.
O homem saiu correndo e eu fui na direção do corpo de Mary.
— Você é louco! O cara pode voltar. — disse Dylan assustado.
Eu nem pensei e fui até ela.
Dylan foi pedir ajuda em alguma casa próxima. Para poder ligar pra polícia e pedir ajuda.
Peguei ela nos braços e ela não respirava mais. Aquela foi a última vez que estaria tão próximo dela.
Chegaram policiais e ambulância, e eu só queria dizer quem foi. Reconheceria aquele homem até mascarado.
Fomos até a casa da amiga de Mary para dizer que foi lá a última vez que a vimos.
O tio de Mary foi para o hospital e nós estávamos na delegacia junto com sua amiga.
— Vocês dois viram quem foi? — disse a amiga dela, balançando as pernas desesperadamente na cadeira.
— Foi um homem de cabelo grisalho, alto e bem magro. Sei todos os traços do rosto daquele cidadão.
— Sei quem é! — Ela falou tão baixo que precisei me aproximar dela. — E mesmo que você não descrevesse, ele é o único que faria isso.
— Foi "marido" do tio dela. Esse cara é o subprefeito da cidade, pouca gente sabe que eles são um casal, fingem ser amigos morando juntos, mas o tio dela sempre fala que é um homem gay comprometido. O tio dela trabalha o dia inteiro, chega tarde em casa e esse cara nem parece que tem emprego. Vive redondezas comendo de graça, conquistando tudo e todos. A cidade ama esse cara, mas eu e meus amigos não. A gente percebia sempre as agressões que a Mary sofria, mas nas únicas vezes que ela o denunciou, o delegado era melhor amigo dele e o dispensou. Falamos com alguns pais, mas ninguém acreditou porque a Mary era nova na cidade e ele sempre foi o homem que dava o exemplo.
O delegado chegou com o subprefeito, ambos rindo e ele fingia secar suas lágrimas.
— Foi você, seu idiota! Eu vi.
Dei um soco na cara dele.
— Menino, eu sou o tio dela. Eu nunca faria isso com a minha menina. Você deve estar atordoado.
Me abraçou e falou no meu ouvido:
— Ou você fica quieto ou vou fazer o mesmo com você!
Sentou ao meu lado, segurando minha mão e dizendo que ver alguém sendo assassinado era traumatizante.
Eu estava com muito ódio, mas não pude fazer nada. Ele tinha o dom da comunicação.
Algum tempo depois, o tio de Mary chegou. Ele está abalado, era um homem bem magro de cabelo escuro e olhos azuis.
O idiota chorava junto com o tio de Mary.
— A gente vai descobrir quem foi. — disse o subprefeito que era tão rechonchudo que mal cabia no terno.
— Eu me culpo por trabalhar tanto e não saber onde ela ia o dia inteiro. - Gritou o tio.
— Eu sempre pedi para ela me ajudar no gabinete, mas ela dizia que queria ir para festas — ele falou, tirando uma foto da carteira e mostrando os três juntos no dia de Ação de Graças. — Ela mentia muito, fugia e evitava conversar comigo, mas eu sentia muito amor por ela.
Os pais do Dylan chegaram. Pegaram o primeiro avião quando descobriram o que tinha acontecido. Minha mãe quis vir, mas pedi que não. Eu voltaria depois do enterro.
— Posso falar com vocês? — disse o pai de Dylan para nós, tirando a gente daquele teatro do subprefeito.
— Vocês são suspeitos. Tem um vídeo passando nos jornais que mostra o porta-malas do carro do meu filho. E a arma está lá.
— Como assim? — disse Dylan, assustado.
— A gente saiu do carro desesperadamente. Provavelmente, alguém implantou isso lá.
— Bryan Olsen e Dylan Williams, vocês ser presos.
A mãe de Dylan chorou e nos abraçou.
— Acredito em vocês. Vamos resolver isso. Bryan, seus pais estarão aqui pela manhã. Farei de tudo.
Fomos para uma a cela. Ainda bem que eu tinha a companhia do meu amigo.
— O que esse cara está fazendo? Ele é um mentiroso abominável!
— O poder acaba com a vida das pessoas. Você viu que ele chorava como se tivesse algum amor pela Mary. O tio dela tem que saber de tudo!
Na madrugada, eu não conseguia fechar meus olhos. Ao tentar, só lembrava de Mary sendo assassinada. Eu nunca fiquei com tanta raiva em minha vida.
Ao amanhecer, minha mãe, aos prantos, foi falar comigo.
— Filho! Eu sei que não foi você! Pedi pro pastor orar por você.
— Pra quê, mãe! Nem acredito nisso! Só você ainda tem resquício de fé.
— Não fale assim com sua mãe. Se você não tem fé... E pelo jeito não tem caráter e quis fazer isso com a menina que nunca quis você!
Meu pai não me olhava e estava muito bravo. Nunca o vi daquele jeito.
— O que vocês fizeram foi horrível. Vocês foram criados com muito amor. Eu confiava em vocês. Como puderam?
— Pai! Acredita em mim! — Eu não conseguia falar de tanto chorar. — Você sabe que eu nunca faria isso!
— Eu não deveria ter aceitado seu desprezo pela nossa igreja. Você sempre colocou na nossa cabeça que lá ninguém prestava, que só tinha fofoqueiros. Você odiava a mãe da Mary. Agora tudo se encaixa. Sua vinda pra cá... você é obcecado por ela. Olha o que você fez. Destruiu o seu futuro.
Eu sentei no chão e não conseguia nem falar. Meu pai foi embora e nem deixou minha mãe se despedir.
— Seu advogado estará aqui à tarde. Fale a verdade, porque provas contra você já temos. — disse um policial rindo da nossa cara.
— Não sei o que faço!
— Nunca o vi seu pai assim. Estão nos acusando de algo que a gente não fez. Sei que você não gosta de espiritualidade e nem de assuntos místicos, mas pelo menos fale comigo esse mantra para acalmar nossa mente..
"Om Tryambakam Yajamahe Sugandhim Pushtivardhanam
Urvarukamiva Bandhanan Mrityor Mukshiya Maamritat"
Nós cantamos para o Triúno Deus, o fragrante, o que nutre o mundo. Que nos liberte das amarras da morte, nos conduzindo à imortalidade
Eu não sabia o significado, mas somente repetia.
Minutos depois, em um sono profundo eu senti Mary ao meu lado, pedindo ajuda.
— Meu herói, me ajude!
Fiquei assustado e acordei.
— Que foi?
— Sonhei com a Mary pedindo ajuda.
— Ela deve estar desesperada?
— Como assim?
— Senhores Olsen e Williams, seu advogado quer falar com vocês.
Um homem com terno marrom, com pouco cabelo, veio falar com a gente.
Boa tarde, meu nome é Christopher Helton. Sou advogado e quero ajudar vocês. Principalmente você, Bryan, que é réu. A vítima, Mariah, foi assassinada dia 15 de novembro de 1982, às 18h. A arma foi encontrada às 20h no carro de placa TNJ 679. No carro, havia um par de luvas e sangue da vítima. No corpo de delito, foram encontradas marcas de agressão. Na jaqueta do senhor Bryan, foi encontrado um bilhete. Escrito:
"Preciso de sua ajuda, Bryan. Você precisa eliminar minha dor. Eu tenho uma arma e preciso que você me ajude a acabar com a minha vida. Sei que você não quer acabar assim, mas preciso que me mate. Não posso fazer isso, porque não tenho coragem de cometer suicido. Você será culpado, mas mostre esse bilhete para o seu advogado que você não será culpado. Me desculpe."
— Oque é isso? Nunca recebi esse bilhete. E eu nunca faria isso. Eu não teria esse coragem.
O advogado ligou a TV e mostrou um vídeo para a gente. Era eu e Dylan. Eu brigava com Mary no meio da rua e ela me mostrava o bilhete. A imagem do vídeo não era nítida, mas aquela jaqueta era minha, mas eu sabia dizer se era eu. Pois todos estavam de costas.
Dylan ficou mais apavorado. Sua fé estava ficando estremecida.
— Isso nunca aconteceu!
— Isso é mentira! Isso nunca aconteceu. Que imagens são essas? Não somos nós! — Eu não tinha mais energia pra falar.
O advogado pegou a jaqueta e mostrou o horário no vídeo. Gravado na tela. Era o mesmo horário do momento em que Mary foi assassinada.
Eu e Dylan não sabíamos o que estava acontecendo, mas tínhamos certeza de que não éramos nós.
— Nós não vamos ficar presos!
— Vocês não precisam mentir. Eu vou ajudar vocês. Ela que quis isso, vocês apenas executaram o que ela pediu.
— Realmente ela me enviou um bilhete, mas não era esse. Só tinha o telefone e o endereço dela. — Tentei achar o bilhete, mas lembrei que deixei no carro.
— Bryan, esquece. Vamos resolver isso.
Fomos transferidos para outras velas.
Dias depois, no dia da audiência, só meu pai compareceu. Minha mãe passou mal.
— O senhor Bryan não será acusado. Finalizamos esse caso.
— Disse o Juiz.
Eu não precisei falar nada.
Foi um alívio, mas minha vida nunca seria a mesma.
Dylan também foi, mas não falamos um com outro.
Voltei para nossa cidade sem entender nada.
O subprefeito xingava a gente na audiência dizendo que ia reabrir o caso para defender sua sobrinha.
Essa cena não saía da minha cabeça. Nada aconteceu como parecia, a carta nos ajudou, mas nada daquilo era real. Nós só ajudamos a chamar ajuda no dia do assassinato.
Tive que terminar meu curso de eletrônica em casa, porque o país inteiro soube que fui preso, e sempre havia alguém na rua me chamando de assassino. Fui trabalhar em uma oficina mecânica e ficava escondido, consertando os carros. Dylan foi proibido de falar comigo, e tudo o que eu fazia era julgado como algo ruim. Todos se afastavam de mim, exceto meu chefe, que ainda acreditava em mim. A única distração que eu tinha era escrever minhas histórias em cadernos, já que não podia usar um computador. Meu pai queimou meu computador e, como ainda morava com ele, mesmo sendo maior de idade, o dinheiro que eu ganhava na oficina só cobria o básico. Nem comida eu podia comer da minha casa, só se fosse do meu dinheiro. Não tinha motivação alguma. Trabalhar na oficina me deixava cansado. Eu só queria voltar à minha vida.
Fui buscar sua mãe no psiquiatra. Trabalharei 3 dias seguidos e preciso que você leve sua mãe esses dias para as sessões com a psicóloga e para fazer exames." Dizia o bilhete na geladeira.
Era a primeira vez depois de tudo isso que ele pediu algo pra mim. Depois desses três meses.
"Você sabe a resposta."
Sim, o caderno respondeu para mim. Eu esfreguei os olhos, olhei para o lado e analisei a letra.
— Estou louco! Só pode ser isso!
Uma senhora olhou para mim e se afastou. Deve ter lembrado quem eu era, mesmo eu com boné.
Levei minha mãe para casa e fui trabalhar. Ela não dirigiu nenhuma palavra pra mim.
Fui ao banheiro da oficina inúmeras vezes para ver aquela frase sozinho. Meu chefe ficou irritado e disse que, se eu fosse mais uma vez ao banheiro, não trabalharia ali, mesmo acreditando em mim, ele tinha medo do que eu podia fazer com ele, por isso sempre pedia para um policial ficar na porta da oficina.
Pensei: " A letra não era minha. E eu saberia que fui eu quem escrevi."
Ao chegar em casa, olhei mais uma vez.
Na geladeira, estava outro recado:
"O Dylan quer falar com você, mas isso só acontecerá com a minha presença. Domingo, na igreja, os pais dele estarão lá. Você irá assistir à missa até o fim, e comigo ele irá falar com você."
Peguei o bilhete e, em um ataque de fúria, rasguei e joguei com ódio no lixo. Precisava falar com Dylan a sós. Ele precisava saber sobre o caderno; ele acreditaria nessa loucura.
Ao chegar na igreja, estava vestido com o terno do meu avô. Estava mais magro que antes e parecia que naquele terno caberiam mais três de mim.
Quando vi o Dylan, não acreditei. Faziam alguns meses. Até barba ele deixou crescer e se desfez do seu estilo hippie e das pulseiras. Nem parecia o Dylan louco que eu conhecia.
— E aí, Dylan? Está bonitão! — sorri pra descontrair.
Meu pai estava tão próximo de mim que nem parecia que eu não sentia seu perfume há tempos. Nem na mesa eu sentava perto dele. Nosso único contato eram os bilhetes, e eu nem ao menos podia responder.
— Como você está, melhor Dylan? - Disse meu pai sorridente. - Verdade que você conseguiu entrar na Faculdade de Boston? Fico feliz. Vai ser bom morar em outro lugar longe daqui. Vai te fazer bem, com certeza.
Nunca vi o Dylan tão desanimado como estava agora. Parecia que ele não estava lá. Ele nunca quis morar em outro lugar. Queria fazer faculdade aqui e casar com a Britney. Percebi que ele não usava aliança. Aquela aliança era de um juramento que ele fez no primeiro dia em que a conheceu. Tudo por causa de uma visão que teve. Ele a viu em um sonho e, do nada, a Britney foi transferida para nossa escola. No dia em que Dylan chegou em casa para me buscar, com um sorriso mais intenso do que o normal, disse:
— Você não vai acreditar? Acabei de sonhar com a mulher da minha vida!
— Elisabeth Taylor? Melhor, a rainha Elizabeth?
— Não, essas são as outras. — Nunca vi um adolescente ter queda pela rainha Britânica, mas Dylan era. — Seus cabelos são negros e sua pele dourada do sol. Ela ama roupas coloridas e seu nome começa com B.
— Boba! Você achou o melhor nome para mulher da sua vida. - Rimos.
Ele deixava eu chamá-la de Bobo também. Ele sabia que era. Quando chegamos à sala, apareceu a menina que ele descreveu mais cedo. Eu não acreditava, mas disse que ele já a tinha visto. Fingi acreditar na sua ilusão. E no intervalo, ele se apresenta e entrega a aliança, e os dois acabam felizes para sempre... ou até tudo acontecer.
— Dylan cresceu. - Disse sua mãe, que estava irreconhecível. Parecia uma empresária de sucesso. - Consegui uma promoção e vamos morar no mesmo bairro que o Dylan. Vamos vigiá-lo, mas, daqui a pouco, ele voa. Conheço meu filho, ele sim não é um assa...
Meu pai não se posicionava mais. E l vi me defendendo pela primeira vez.
— A senhora abaixe a guarda, que seu filho também o ajudou e estava no dia em que meu filho foi influenciado.
Meu pai pegou no meu braço e fomos para casa.
Não consegui falar uma palavra com Dylan, e ele também não. Fomos para casa e ouvi minha mãe gritando e batendo a porta. Ela ficaria mais alguns dias trancada no quarto. Nos evitava.
Ouvi alguém bater na minha porta. Era meu pai, com um prato de comida, depois de meses sem perguntar se eu ainda sentia fome.
— Posso conversar com você?
— Claro! Você pode conversar sempre comigo.
— Desculpe por te tratar mal. Eu não tive coragem de acreditar em tudo isso. Sinto que você não conseguiria atirar em ninguém, nem ao menos pegar em uma arma. Aquele vídeo eu assisti apenas uma vez e sabia que não era você, mas seu dizia que sim. Porque fiquei ouvindo um monte de gente acusando você. A jaqueta era sua, fui eu que te dei e deduzi com certeza que você fez isso, mesmo sabendo o quão bom você é. Você não falava com ela, por que resolveu ir atrás?
— Você quer ouvir a minha versão?
Contei todos os detalhes, inclusive sobre o marido do tio de Mary.
- Eu te amo, filho! Desculpe!
Nos abraçamos.
Na mesma noite, resolvi ligar para o Dylan.
— Oi, não desligue, preciso falar com você, é apenas uma pergunta.
— Sim! Eu gostaria de ouvir sobre as matérias do curso. - Dylan falou em voz alta, para ter certeza que era da universidade e não eu.
— Vou ser rápido. Você ainda acredita em misticismo?
— Sim, ciências humanas!
— Escrevi em um caderno e ele me respondeu. Sei que não acredito nisso, mas a letra não é minha. Se você quer saber, eu vou trabalhar na oficina daqui a pouco. Leve o carro do seu pai, se puder. A gente não vai falar um com o outro, mas vou deixar o caderno com você. Se puder, me devolva à noite, deixando no quintal do seu vizinho.
— Certo, obrigado!
Não nos encontramos, mas vi o carro do pai dele. Deixei o caderno no porta-luvas.
À noite, encontrei o caderno e havia um bilhete do Dylan:
"Que saudades, meu amigo. Claro que acredito. Eu e a Britney não estamos mais juntos. Descobri que ela está com Antony, aquele amigo do curso de francês. Nunca gostei dele, mas agora sei o porquê sonhava com ele segurando uma cobra. Deixando o assunto de lado, eu vou para Boston com a maior tristeza de sair dessa cidade que tanto amo. Deixei meu estilo hippie de lado e vou ser um homem de negócios. Logo eu, que queria ter apenas um trabalho de meio período aqui neste lugar. Para ser um dono de casa, enquanto a mulher da minha vida seria professora do primário. E eu cuidar dos nossos 11 filhos. Amigo, espero que volte a ser o cara mais racional e feliz que eu conhecia!
Atenciosamente,
Dylan
Eu olhei desesperadamente para as folhas, e:
"Quem é você?"
"Sou alguém conhecido. Você é o Dylan, o cara hippie."
"Como você sabe que eu sou hippie? Já nos conhecemos?"
"Sim."
Fechei o caderno rapidamente. O Dylan só poderia estar louco! Como ele conseguiu se comunicar com isso? Joguei o caderno no chão, desacreditado.
No dia seguinte, fui trabalhar e, ao chegar em casa, vi o caderno no mesmo lugar. Minha mãe não entrava no meu quarto e meu pai estava fora a semana toda. Olhei o caderno e resolvi ter coragem de ler toda aquela mentira.
"Como assim? Me diz quem é você?"
"Sou a Mary."
Ao ler, fiquei mais incrédulo do que antes. Resolvi procurar o bilhete de Mary, mas estava no quarto dos meus pais. Minha mãe tomava remédio para dormir e eu sabia que poderia fazer barulho, pois ela só acordaria quando o efeito do remédio passasse.
Fui até o quarto e vi que o cofre do meu pai seria o único local onde isso poderia estar escondido. Antes, ele confiava muito em mim e eu sabia a senha, mas duvido que ele deixaria a mesma. Tentei a senha antiga e o cofre abriu. Ele confiava ou talvez tivesse esquecido de mudar.
No cofre estavam algumas notas de dinheiro — bem poucas, pois ele usou quase tudo para pagar o advogado. Também estavam alguns documentos e o bilhete de Mary. Peguei-o rapidamente e fui para o meu quarto.
Li aquele bilhete, que me fazia mal. Mas aquela letra era dela, embora não fosse o mesmo bilhete que eu li na casa de sua amiga.
Abri o caderno e comparei as letras. Eram realmente iguais.
Peguei uma caneta e comecei escrever.
"Meu nome é Mariah. Tinha 17 anos, cabelo descolorido. Morava na Califórnia, com meu tio. O marido dele me assassinou há meses atrás e você e o Bryan o viram."
Ao ler, senti meu corpo cair. Vi tudo escurecer. Acordei com meu pai dando alguns tapas no meu rosto e minha mãe me olhava aflita.
— Bryan! Você está bem? — Deve ser fome. Ele não come direito há tempos. — Venha, meu filho. Farei um jantar para você.
Sentei na cadeira, aflito. Não conseguia me mover. Segurava o caderno com muita força. Minha mãe me perguntou, brava:
— O que é isso, Bryan?
Eu não conseguia abrir a boca.
— Me diz o que é isso, Bryan? Mais um dos seus problemas? Não faça mais nada, em nome de Deus!
Meu pai saiu de casa sem falar para onde ia.
E eu não conseguia falar. Não consegui comer a refeição e fui para o quarto, aflito.
Minha mãe gritava:
—Saí satanás perto do meu filho!
Tranquei a porta.
"Mary, é você?"
Senti meu corpo vibrar e ouvi um barulho de destruição, mas não era nada externo. Meu corpo ficou leve e apaguei. Ao acordar, não estava em casa.
Vi que o lugar em que eu estava era diferente. Cheirava a flores. Vi uma silhueta conhecida olhando para a janela. Era ela, mas estava bonita. Seu cabelo cor de chocolate estava de volta e seu olhar estava mais vivo.
— Mary, é você?
— Sim, sou eu! Você veio me salvar de novo!
O calor do abraço dela era tão intenso que parecia tudo real.
— Isso só pode ser um sonho.
— Aqui pode ser considerado um sonho, mas é muito real para quem sente.
Ela olhou para mim e beijou meus lábios. Nunca senti seu beijo, mas era muito macio e suculento. Senti um líquido quente escorrer próximo à minha barriga. Toquei minha camiseta e vi que era sangue. Me desesperei.
— O que é isso?
— Você não pode vir para cá. Mas não desista de mim!
Mary caiu no chão, igual à cena que eu vi no último segundo de sua vida. Ouvi o estrondo de destruição e acordei na minha cama.
— Foi um sonho! Ainda bem.
Levantei e fui ao banheiro. Quando olhei no espelho, vi minha mão com sangue.
— Bryan!
— Oi, mãe!
Ela batia com força na porta e meu pai forçou a porta até abrir.
Viram minha mão cheia de sangue e deduziram que eu quis tirar minha vida.
O telefone tocou.
Eu peguei o telefone antes do meu pai. Mas ele pediu pra colocar no viva voz.
— Oi, quem é?
— Senhor Bryan, trabalho nos Estúdios FX. Nossa sede fica na Califórnia. Recebemos uma indicação de seu professor de elétrica meses atrás. Gostaríamos de saber se você pode comparecer no dia 10 aqui na sede. Para ajudar com alguns computadores aqui.
— Desculpe, mas eu não posso!
— Sim, sabemos de tudo que aconteceu com você. Gostaríamos de oferecer esse estágio. Precisamos de técnicos de elétrica e gostamos de seu desempenho escolar.
— Sim, vou falar com meus pais.
— Espero o retorno. Pode ligar no número do meu ramal.
Ao desligar, fiquei confuso.
Meus pais me olharam e perguntaram o que eu estava fazendo no quarto. Se eu queria acabar com minha vida. Minha mãe disse que foi Deus que fez aquela empresa ligar. Que ela iria junto comigo.
Dei um beijo em sua bochecha. E falei que minha mão machucada foi por conta de um copo d'água.
Liguei imediatamente pro Dylan.
— Aqui é da Universidade de...
— Sim, vou chamá-lo. — Disse sua mãe.
— Alô, quem fala?
— E aí, Bobo!
— Oi, sim, é ele.
— Você precisa me ajudar.
— Sim, posso sim.
— Você estará disponível dia 10? Preciso ir para a Califórnia. Consegui uma entrevista de estágio para trabalhar nos Estúdios FX.
— Como assim... — falou em tom baixo o Dylan.
— Lembra do professor Park? Ele me indicou para algumas empresas meses atrás. E essa quer me oferecer um trabalho. Fora, que fica naquela cidade, poderei conversar com a amiga da Mary.
— Você pirou? Você vai sozinho? Minha mãe disse que vai comigo. Mas acho que ela não vai. Meu pai voltou a confiar em mim, vou conversar com ele, se ele achar ruim, vou mesmo assim.
— Você poderia ir comigo!
— Eu nunca menti pra minha família. Eu vou fazer o que naquele lugar?
— Se vingar!
Eu precisava voltar para aquele lugar.
Na manhã seguinte, conversei com minha mãe. Ela ficou feliz com a volta da minha amizade com o Dylan, mas pediu cautela. Falou que meu pai não precisava saber, pois Deus sabia de tudo e ela não conseguiria ficar longe da igreja. Fiquei preocupado em deixá-la, mas era necessário.
— Quem vai cuidar de você? Quando pai viajar?
— Eu posso pedir para a senhora British. Ela não vinha aqui por ter medo de você.
— Telefonarei sempre e visitarei a senhora todo mês. Aqui está o endereço pra vocês saberem minha localização.
— Filho, você promete que não vai pra aquela cidade próxima do seu futuro trabalho?
— Prometo!
Menti para minha mãe.
Alguns dias depois, Dylan conseguiu conversar com seus pais e eles deixaram ele ir sozinho para fazer a matrícula, era mentira a matrícula foi feita dias antes quando ele disse que foi na casa de sua ex namorada, Britney e que voltaram. Mais uma mentira pra nossa coleção.
— Estarei na rodoviária às 15h, Bryan. A única pessoa que sabe disso tudo é minha tia avó.
— Quê? Não era pra você contar que vamos juntos.
— Calma, ela é mística. Lê tarot e sabe de tudo.
— Você é maluco!
— Somos!
Na rodoviária, abracei meu amigo. Olhei se não tinha alguém bisbilhotando. Parecia que tudo voltou ao normal.
Contei sobre aquela visão.
Peguei o caderno e ofereci ao Dylan. Vi que em sua mão havia uma aliança.
— Britney?
— Acabei de encontrá-la. Ela terminou com aquele cara e fará a mesma universidade que eu!
Ao chegarmos, ele entrou na casa da tia dele, que cheirava a todos os perfumes possíveis. O lugar estava cheio de plantas e flores, e nós sentamos no sofá. Dylan pegou minha caneta e começou a escrever no caderno.
"Olá, Mary. Você pode nos dizer o motivo do Bryan ter cuidado?"
Não tivemos resposta imediata, mas segundos depois, ela escreveu. Dylan estava distraído com a paisagem, e eu li em silêncio:
"Bryan não pode aceitar esse emprego."
Aquela mensagem me desconcertou. Estávamos muito perto de nosso destino, e aquela oportunidade poderia mudar minha vida para sempre. Peguei o caderno da mão de Dylan e guardei-o.
Me arrumei e fui direto para o estúdio. O segurança me olhou de cima a baixo e perguntou se eu era o menino que matou a namorada. Como eu estava mais magro e com barba agora, expliquei que ele estava me confundindo.
Uma senhora extremamente elegante me chama e me pede para preencher um monte de formulários. Ela me manda sentar e pergunta...
— Por que você aceitou fazer aquilo com sua namorada?
— Desculpe, eu não entendi!
— Por que você escolheu o curso de eletrônica?
— Desculpe, entendi errado!
Eu tive certeza que ela perguntou isso, mas respondi sobre o curso.
Voltei pra casa da tia do Dylan e ele não estava lá, porque tinha ido fazer compras. Abri a porta e quem estava me esperando era a sua tia. Ela me pediu para sentar e embaralhou as cartas de tarô.
Ela, humildemente, disse que estava vendo uma mulher no meu destino. Lembrei que o Dylan havia contado tudo para ela, então imaginei que ela sabia mentir direitinho. Mas quando falou que, nesse emprego, aconteceria algo que mudaria o passado, eu até acreditei.
Fui para a cama, mas não conseguia relaxar. Então, resolvi escrever no caderno:
"Mar...
"Não vá para lá! Ele vai descobrir sobre você!"
Acordei assustado. Mais uma vez, dormi sem ao menos saber o que a Mary queria dizer. Fui tomar café e me preparei para o estúdio.
Dylan falou que iria me encontrar na saída do estúdio.
O lugar era enorme. Atores e atrizes famosos ao meu lado. O escritório estava cheio de arquivos.
— Você deve ser o Dylan. Aqui precisa de uma organização. É só colocar as fitas em ordem alfabética. Caso precise de ajuda, estarei no galpão ao lado. — Disse um homem de barba branca e careca.
Encontrei o Dylan, adivinha com quem? Ele foi buscar a Britney.
— Nossa, Bryan você está irreconhecível. Parece um matador...
— Britney! — Disse Dylan envergonhado. Eu amo você, mas é difícil viver com sua sinceridade aflorada
— Ah, obrigada! Estou mesmo diferente.
— Sim, agradeço a ajuda.
— Certo, boa noite!
Era uma moça com lábios rosados e seu cabelo tinha ondas perfeitas. Seu olhar era levemente puxado e os olhos negros, como a noite.
— Você é atriz?
— Não, sou estagiária. Eu ajudo na produção.
— Eu também sou estagiário. Só que fico no arquivo.
— Que legal! Deve ser divertido organizar o que a gente produz. Deve ter muito conteúdo.
— Sim, muito. Todo dia tem trabalho.
— Vou pedir licença. Vou ajudar meu encarregado. Qual seu nome mesmo?
— Bry...Bryan do arquivo.
Nunca reagi assim. Parecia um menino de 10 anos gaguejando para sua paquera secreta.
Comentários
Postar um comentário